PEQUENO MANUAL DE DIA DA MULHER PARA PUBLICITÁRIOS

bispo_015_cotada

  • por Mariana Paiva

O dia da mulher vem chegando e, com ele, as inúmeras pedradas e cagadas (não tem outra palavra, sorry) da publicidade. A mais recente e a pior de todas – até aqui, enquanto escrevo o texto, lembrando que a lei de Murphy é a pior inimiga da mulher – foi essa que vou comentar. E olha que é difícil eleger uma pior com tanto sorteio de batedeira e aspirador de pó nas empresas. Com tanta distribuição de florzinha um dia do ano quando o contracheque mostra salários menores para as mulheres que exercem as mesmas funções que os homens.

Estamos em Salvador, o ano é 2018. O bar já é famoso – não pelo chope geladíssimo, não pelo ambiente descolado, mas pelos foras no entendimento de como tratar mulheres. No dia de open bar, as mulheres entram de graça, um chamariz maravilhoso para os homens que frequentam o lugar. E enche, naturalmente.

A campanha desse ano é tão surrealmente machista que chega até a ficar difícil explicar. A ideia é a seguinte: amanhã, que calhou de cair no dia do famoso open bar, a mulher que for vai ganhar um presente incrível. Quer dizer, na verdade, quem vai ganhar o presente é o homem. Aí ele decide se vai ser “gentil” em ceder o mimo a alguma das mulheres presentes. Sim, você leu certo. 1950 tá ligando e esse pessoal tá atendendo.

Não, gente. Não é assim que faz publicidade para o dia da mulher. Em 2018, não queremos ganhar nada de ninguém. É que não estamos acostumadas a sermos favorecidas, exceto nos naufrágios. Tudo o que temos nós lutamos pra conseguir: foram quilos e mais quilos de sutiãs queimados (e que continuamos queimando, cada uma a seu jeito) pra sobreviver nesse mundo cão. E os homens já ganham presentes todo dia, qual a novidade? Precisa ser dia da mulher? Eles já têm os melhores cargos, os melhores salários, a preferência nas entrevistas de emprego. Vai presentear homem em pleno dia da mulher? Me faça uma garapa, vá.

Isso só me mostra uma coisa das mais urgentes: pelamordedeus, coordenações de cursos de publicidade, vamos falar mais de mulheres. de negros (olha aí a pedrada do papel Neve preto). de uniões homoafetivas. Os alunos precisam melhorar pra que não cresçam e dêem uns vexames assim, poxa, fica feio pra quem formou também. Vamos melhorar essas grades curriculares, dar palestras a esses meninos, ensinar empatia, já que em casa a gente sabe como é.

Fica aqui minha dica pro bar: na dúvida, é melhor fazer uma caça ao tesouro (só de mulheres, naturalmente). Estamos acostumadas a ir atrás do que a gente quer. Mas ganhar não, ganhar nunca. E “gentileza” de homem em open bar no dia da mulher quer dizer qualquer coisa, menos gentileza. Prefiro não.

 

  • a imagem é da obra “Como é que eu devo fazer um muro no fundo da minha casa”, de Bispo do Rosário
Advertisements

meu desejo de esperar

San-Junipero-3

por Mariana Paiva

 

O povo passava na rua, um cheiro danado de comida e era perto da hora do almoço. Eu vou dizer a verdade que não vi muito do que acontecia ao meu redor. Quando dei por mim, já cantava. Cantava baixinho, afinada. Não lembro a música. Mas foi bom, tão bom, uma epifania sob aquele sol sem trégua. O borracheiro consertando o carro e eu cantando pra alguém ouvir. Qualquer hora dessas a canção me volta.

De vez em quando a gente lembra que canta. E então uma música velha, coisa do tempo em que eu escutava rádio todo dia. O jabá devia ser bom porque essa toda hora tocava. Eu gostava tanto. Mas não me lembrava da última vez que soltara a voz com tanta vontade depois daquele dia na rua, sem vergonha, cantando tão bonito, daquele jeito que a gente só canta pra quem sabe de nossos mistérios. Nossos escuros. Lembrava tanto da letra que parecia que tinha sido ontem aquela tarde branca em Salvador, o caderno os livros as canetas, tudo espalhado sobre a cama, o rádio enfim acertando na programação, minha música tocava. Naquele tempo a música que tocava era sempre a minha. Minha.

Canto e estou de novo na praça Tomé de Souza. Essa voz te devolve coisas, menina, coisas que você pensava esquecidas. Te devolve a noite, o mendigo com a mão na barriga, te devolve a fome, aquela que há muito você não sente. Você canta. Sabe que vai ser sempre assim: esquecimento e então lembrança. Canta sem medo de desafino, canta sem medo dos graves, dos agudos. Canta e sorri, infinita.

 

  • a foto é um frame de “San Junipero”, episódio de Black Mirror

O risonho cavalo do príncipe

23335657_10156887093213009_743201055_o

por Mariana Paiva

O acaso continua dono de minhas mãos nas bibliotecas. Quando vejo, chego em casa com um livro sobre o qual nunca li uma linha ou indicação, sem pretensão de ser bom ou ruim, nada de expectativas. Uma novidade sem precedentes essa aposta sem saber o que virá pela frente: mas não é assim também viver? Ser uma leitora aleatória tem me ensinado muito disso.

Voltei para casa com “O risonho cavalo do príncipe”, de José J. Veiga. Gostei do título e trouxe, tal qual menino pequeno quando encarna num brinquedo por causa das cores. E a surpresa que se escondia nas páginas eu não fazia ideia. Essa já era a melhor parte, antes mesmo de começar a leitura.

Só que foi bom. Tão bom que eu, que leio muito rápido, me amarrei pra chegar ao fim porque tava gostando. E a história é sobre acaso: duas crianças e uma tia que, só compreendendo poucas palavras de um livro em alemão deixado para trás por um viajante, decidem inventar a seu gosto uma história. A tia, que sabia um alemão bem rasteiro, conseguiu decifrar apenas que o livro falava de cavalo, príncipe, computadores, porcos e arqueologia. De repente, ela, Mem e a sobrinha César não precisavam de mais do que isso para criar sua própria (e encantadora) história, também sobre acasos. O risonho cavalo do príncipe é um livro sobre acasos que tem outro livro sobre acasos dentro: o do alemão Karl, que sai da Alemanha rumo à Etiópia para procurar o antigo reino das Galimátias. Ele e o guia local Alkilov se agarram aos acasos para seguir viagem.

E a graça é essa mesmo (do livro e também da vida): por vezes não saber onde se está e ir apenas tateando no que acontece para ir adiante. Assim como a história construída por tia Basília, Mem e César, assim como a viagem de Karl e Alkilov, José J. Veiga deixa o leitor passear à vontade por seus devaneios num livro absolutamente divertido e crítico. Seja no cavalo do príncipe que ri diante do elogio aos reinos ou no nojo/estranhamento que os alemães sentem de estar em território africano, tem espaço para crítica. Tudo sem afetação e cheio de ironia.

Ele conhecia bem a mentalidade de europeus que insistem em levar para o estrangeiro até os seus hábitos alimentares, como se fossem a dentadura, a úlcera, a cirrose, e com isso perdem o melhor da viagem, que é a aventura de conhecer comida e sabores diferentes. Por isso é que os restaurantes dos hotéis cinco estrelas do mundo inteiro são detestáveis: a comida tem sempre o mesmo gosto, isto é, nenhum.

“O risonho cavalo do príncipe” é daqueles livros em que o autor abre espaço para quem está lendo criar sua própria história, sem finais demasiadamente conclusivos. São duas histórias, uma dentro da outra, e ainda tem lugar para quem lê. Coisa gostosa de ver na literatura, ainda mais com uma linguagem tão livre e tranquila. Livro bom de fazer companhia na viagem, na praia, no dia de chuva, sem afetação canônica nem nada parecido: talvez seja esse mesmo o maior mérito dessa aventura dupla de José J. Veiga.

 

como uma velha amiga que volta

shiva

por Mariana Paiva

Tudo pode mesmo acontecer (ou então é a lua em gêmeos). É essa mágica de um dia acordar e se surpreender gostando, gostando cada vez mais, se espalhando como gato em chão limpo. Sem muita pista você descobre que a grande novidade é estar infinitamente bem: um dia, depois outro e então fica simples. Você lembrou como. As saudades agora são todas suas amigas, sem choro, como aquele xampu de criança: chega de lágrimas.

Como Chico que, depois de sete anos longe do público, reaparece entoando Voltei a cantar. Aquela confiança de meio-dia, aqueles passos largos e certos, sem medo de sol forte nem de vento. A alegria de passar falando com todo mundo, sorrindo, fazendo o que tem de ser feito. E, de repente, uma vontade de mudar tudo, de trocar as coisas todas de lugar, de olhar pra novidade. É bom, né?

E tudo isso ser simples. Fácil como ser infinita, como uma música boa esquecida que de repente a gente começa a cantarolar e descobre que ela nunca saiu da gente. Ah, alegria, puxa a cadeira e senta confortável que eu tenho muita história pra te contar

 

  • na foto, Shiva, deus  hindu da destruição e da transformação

Música boa?

Eleanor-Rigby-moidsch_

  • por Mariana Paiva

 

Sentada na mesa ao lado da minha no restaurante, a professora comenta comigo a alegria de apresentar Os Saltimbancos e Palavra Cantada aos alunos de cinco e seis anos. Elogio, acho bonito o interesse por gente, por dividir com o outro o que a gente gosta. Mas foi cedo demais, confesso. Nem meio minuto depois ela arrematou: “De vez em quando algum chega cantando rap na escola, eu não digo que é errado, mas tento mostrar música de verdade pra eles”.

“Música de verdade”, ela diz. O que é música de verdade? Música “boa”? Quem decide o que é bom e o que é ruim? Dentro dessa teoria, Mano Brown  é música ruim e Bach (outro que a professora citou) é música boa. De verdade. É? É mesmo?

Quando eu era pequena, meus pais me apresentaram a Chico Buarque com um disco dele com o Quarteto em Cy (“Chico em Cy”). A gente também ouvia A-Ha (“Hunting high and low” bombava nas fitas K7 lá em casa). E aí que eu achei de ouvir rap. Tinha uns 10 anos quando me apaixonei por Racionais MC´s. Ouvia “Fim de semana no parque” dia sim dia não, e tenho a memória de boas viagens de ferry boat em que eu preferia ficar dentro do carro (anos 90 podia tudo mesmo) ouvindo minha fita K7 deles. Na verdade, era uma cheia de gravações de Xuxa, mas aí eu cresci (um pouco, porque gente de 10 anos não se governa) e gravei Racionais por cima. Dessas ensolaradas viagens aprendendo a cantar um universo tão diferente do que eu vivi eu nunca esqueci.

Pois é, professora. O rap me criou também e tô aqui de boa. Reconheço Ravi Shankar nos primeiros acordes, adoro Liszt e acho “O homem na estrada”, dos Racionais, uma das coisas mais atuais que tem. Não é um contra o outro: por aqui, em minha vitrola, Rincon Sapiência se mistura de boa com Carole King, Sabotage com Simon & Garfunkel, Leonard Cohen com Timbalada. Se vacilar e a luz apagar, ainda sei de cor um Ragatanga ou um Cerol na Mão. Balanço o pescoço pra imitar “Um morto muito louco” e canto Cream em alto e bom som no carro. Lá da estante, a coleção de clássicos da Caras assiste a tudo sem se chocar. Mozart, Beethoven,  todo mundo feliz.  Música de verdade é a que toca a gente, professora. E vou terminar citando seu preferido, Mano Brown: “deixa o menino”…

 

  • a ilustra linda é a Eleanor Rigby de Moidsch

natureza humana

andrelouco

por Mariana Paiva

Coisas incríveis acontecem quando a gente deixa o acaso trabalhar. Livro, por exemplo. Tava querendo ler alguma coisa que eu não fizesse ideia de como seria. Nenhuma informação anterior (ou praticamente nenhuma), nenhuma nota de jornal falando sobre. Foi assim que andei por várias prateleiras da biblioteca até encontrar o que procurava: “André Louco” (1978), de Bernardo Élis.

O que eu sabia dele: que era goiano e objeto de pesquisa de Nina, minha amiga. Era isso. A primeira sorte que eu dei foi ter, logo no início do livro, uma ficha autobiográfica dele, que me contou um monte de coisas. Soube que, por conta de uma birra entre seu pai e o mestre-escola da cidade, Bernardo teve que estudar em casa. E que, sendo ele aniversariante do dia 15 de novembro, seu pai lhe dizia que eram em sua honra os foguetes estourados e a bandeira nacional hasteada por toda parte em Corumbá.

E então o livro: “André Louco” reúne cinco contos, incluindo o que empresta o nome ao livro. É nele, aliás, que está o que o livro tem de melhor: aterrorizados com André, um louco que sai a matar quem encontra pelo caminho, os habitantes da cidade se reúnem para agir contra ele.  São os gritos de André a única coisa que foge ao controle da aristocracia local, reunida em salas de visita para conversar amenidades e se gabar de feitos.

precisamos do Louco, seu João. Precisamos muito dele. Sem o Louco ninguém aguenta a insipidez da cidade.

O dia em que os gritos do louco enfim não são ouvidos, entretanto, é um tédio.

E o resto do dia o gramofone alegrou funebremente a cidade, mais deserta, mais muda, onde pairava um vácuo enfadonho, com vozes longes de gente conversando, menino chorando

Entre exorcismos e outras soluções religiosas oferecidas para livrar a cidade de André Louco, o silêncio é conquistado às custas de muitos gritos. Para parar a violência, mais violência. Paradoxal e perfeito como a (des)humanidade, ainda mais nesses tempos.

No último conto do livro, “A lavadeira chamava-se pedra”, mais uma grata surpresa. A lavadeira queria dar uma gaita de presente a seu menino, mas não podia, não tinha dinheiro. E exatamente o ladrão da cidade, o conhecido e antigo gatuno das ruas do local, é quem oferece a prenda. Um coração bom no peito de quem está acostumado a subtrair objetos dos outros, como é que pode?

Nas páginas do livro, Bernardo Élis espalha um tema interessante: o ser humano cheio de paradoxos. Do outro lado, quem lê chega a ter pena de André Louco. Torcer para que a vez de Paratudo chegue. Talvez até chore junto com a lavadeira no fim do conto. Vai entender essa natureza humana tão humana que Bernardo Élis insiste em mostrar…

 

andrelouco
André Louco
autor: Bernardo Élis
editora: José Olympio
102 páginas

La la la la la la la

IMG_9512

  • por Mariana Paiva

Eu sabia que você ia rir. Que a voz ia sumir enquanto ria, ria, ria. É muito solto mesmo. Eu sabia. E é desses saberes ancestrais: na hora de mentir a gente ri também. Ri da mentira e ri da verdade. Podia ser sério mas é risonho, foi tudo outro dia mas já faz muito tempo. Uma encarnação inteira errando letra de música (assim fica fácil escrever).

Fala um verso e ri. Mais outro. Ri também. A boca ri porque vai sempre escolher rir a chorar. Eu não disse? Eu sabia que você ia rir, boca. Eu sabia que você ia fechar todinho pra rir junto, olho. Sabia de saber ancestral.

2018 tem copa do mundo. A sala ainda estará lá, no mesmo lugar? E aquele medo de elevador? Tá tudo estável? Mais ou menos. A resposta é sempre mais ou menos e riso, riso, riso. Quem sabe um dia esteja tão estável que desmorone. E aqueles versos “la la la la la la la la”? Esses não dá pra esquecer. São simples mas sem erro. Devem ser assim mesmo as coisas de certeza da vida: definitivas. Até bobas de tão óbvias. Tanto que a gente até duvida delas.

No mais, tô lendo Derrida pra desconstruir

 

  • a imagem é de Nan Lawson