do lado esquerdo do peito

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por Mariana Paiva

Ainda bem que ninguém dá presente hoje. É dia do amigo e a amizade come mesmo é coisa cotidiana: uma cartinha cheia de sementes de agrião, um telefone que toca quase meia noite quando precisam de você, um ouvido, um abraço. Um dia em que você não tá bem e alguém lhe aparece com umas sementes de pimenta fálica pra você plantar e dar risada. É contar o presente de aniversário antes da hora porque a amiga sabe que você vai ficar feliz antecipadamente em saber que é uma cabeça de unicórnio. É uma taça de vinho, uma palavra, uma carta que viaja por continentes até chegar aqui. É um sonho de semente de coentro e um amor tão grande, tão maior. É tanta coisa que não dá pra contar. Um  encontro que dispensa palavras e deixa tudo em suspenso: a amizade.

Há os dias bons e os dias nem tão bons assim. Esses últimos são matéria de tempo, é só ele é quem pode com certas questões. Mas um dia, então outro dia, e quem sabe um reencontro. Amizade também é pra dizer isso: há pontos finais que merecem seguimento. O coração é que sabe quando sim e quando não.

Para as saudades, uma música de Milton sempre presente. É coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito. O mundo tão complicado e esse amor de amigo pronto a acolher, aconchegar, fazer verão. Nesse assunto ninguém precisa dar nome aos bois: quem é sabe (como diz o povo das indiretas). As mãos dadas na vida não deixam negar.

 E um dia pra comemorar sendo pequeno demais para caber a espera, o riso solto, os encontros de quem sabe que, se há um destino bom nessa vida, é o de viver junto. Ninguém é uma ilha. Mas se por acaso eu for uma, que seja uma Itaparica cheia de meus melhores amigos, tomando água de coco e falando bobagens, me fantasiando de festa todo dia, que essa vida não é pra menos. Ser feliz deve ser alguma coisa como isso: boa companhia, o mar indo e vindo e a vida acontecendo – seja lá como for.

* a pintura é “Breakfast in the Open”, de Carl Larsson

amanhece.

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por Mariana Paiva

Eu queria ser capaz de escolher uma coisa só, mas nem vou tentar. É que alegria quando vem de pacote o ideal é abrir e pegar tudo de vez, sair atacando tudo que nem caixa de Bis. Alegria é quando você olha ao redor e acha tudo especial demais de repente: faça chuva ou faça sol pela janela, dentro brilha.

E por isso mesmo agradecer. Aquele brinde de pinot noir na viagem, as papilas gustativas felizes ao encontrar a uva preferida. Uma noite difícil e a vontade quieta pulando no peito de mostrar o sol nascendo tão bonito na estrada às pessoas. Olhe,às vezes a vida é triste, mas tem essa revolução que acontece todo dia à revelia de toda tristeza. Amanhece. E é porque amanhece que tem que matar a saudade da cama da gente, do pijama, de se enfiar embaixo dos lençóis e dormir até mais tarde.

Assistir a  um concerto de crianças violinistas. Entre um intervalo e outro, a alegria saltitando em seus olhos, as roupas arrumadas e os pés de moleque correndo pra lá e pra cá com seus violinos sem medo de chão. Não se avexe não, não tem solenidade certa quando a hora é de alegria. Ou a amiga que senta no chão pra pintar suas unhas da mão direita pra você, logo você, que borra tudo que faz com a mão esquerda. Sim, a alegria, ela de novo. A alegria de ter uma amiga que faz as vezes de sua mão esquerda. Tão bom.

Contra todas as previsões nostradâmicas, contra todas as manchetes de jornal, contra todos os berros, contra todas as violências, só mesmo ela. A alegria, esse negócio universal de tão grande

(amanhã amanhece de novo)
* a imagem linda é de Catrin Welztein

Volto semana que vem

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  • por Mariana Paiva
Muito além das tão conhecidas narrativas de ditadura militar, em que abundam os relatos de prisões arbitrárias e torturas, há as pessoas. E é esse o universo que Maria Pilla descortina em seu livro “Volto semana que vem”. Como numa espécie de diário escrito em primeira pessoa, Maria passeia pelos anos de sua história: a presa política já foi criança, já caminhou por capinzal de guarda pó branco com os colegas para chegar à escola.

Se há um grande mérito neste que é um grande livro sobre a ditadura militar é exatamente sua diferença dos demais: ele é humano, demasiadamente humano. Porque “Volto semana que vem” mostra a trajetória da militante política Maria Pilla sem resumi-la a isso (embora isso seja grande parte de sua história). Apresenta a menina que gostava de voltar para casa de lotação com o pai, a moça cujo coração quase sai pela boca depois de um convite para o cinema (o filme era Easy Rider). Que passeia pela rua Augusta, que vê os conhecidos serem levados e desaparecerem nos porões da ditadura, que se alegra ao sentir o cheiro do manjericão na comida da prisão de Olmos, na Argentina.

Um livro fragmentado, exatamente como quem passa pelas agruras da vida sem esquecer do gosto bom de rabanada. Que ainda se lembra de uma promessa feita a queima-roupa ao pai, avisando que voltaria na semana que vem, e que só se sabe cumprida muitos, muitos anos depois. E que, à revelia das violências e das privações todas de liberdade, ainda lembra de como era não sentir medo:

Agora a escola ficava longe de casa. Tomava-se o bonde até o fim da linha e depois seguia-se a pé pelo capinzal dos terrenos baldios. Todos viam aquela revoada de crianças com seus guarda-pós brancos. O medo dos outros ainda não tinha sido inventado.

“Volto semana que vem”, de Maria Pilla, é, antes de tudo, uma obra de resistência, uma recusa a se envergar diante do peso da vida. Ou quem sabe um ponto de seguimento na história, sensível e necessário.

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Volto semana que vem
Maria Pilla
Cosac Naify, 96 páginas

Muito além do jardim

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por Mariana Paiva

Sou menina amarela de apartamento. Ou melhor, era. Fui até cerca de 60 dias atrás, quando me mudei para uma casa. No quintal dela, um jardim tomado por mato de todo jeito, restos de entulho, telhas soltas. Comecei então a ver coisas que nunca tinha visto. Meus olhos se abriram nas prateleiras dos mercados para luvas de jardinagem, enxadinhas, pás, mangueiras. Mudinhas de plantas. Estava ao meu alcance transformar aquela bagunça no que eu quisesse. Descobri rápido.

Aprendi a gostar daquele tom marrom típico de terra. Parei de ter nojo de minhoca quando peguei uma na mão, cheia de uma coragem que nem sabia que tinha. Capinei, tirei o lixo, fui jogando pro canto tudo o que eu não queria mais pro jardim. Mesmo achando um ou outro matinho mais bonitinho, aprendi a arrancar. Mato não pode ficar no lugar da planta que você quer. Aí uma lição que vou levar pra vida, e vale pra tudo: gente, trabalho, amor, amizade.

E então a lição maior: a paciência. Esperar um dia e outro e mais outro até ver que o hortelã quis ficar. Que o pé de manjericão agora balança frondoso e gordinho com o vento que passa. Jardim pede água, carinho, tempo. Pede espera. Pede um olhar de manhã cedinho pra ver se todo mundo tá feliz na terra nova. É se derreter ao ver mais uma pimenta vermelhinha pendendo do pé. Uma tímida pitanga anunciando uma multidão futura delas. As rosas colorindo tudo. Primavera pode ser sempre, coração sabe. Jardim é um jeito bom de aprender amor.

she´s like a rainbow

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por Mariana Paiva

Há uma novidade imprevista que é capaz de ensolarar qualquer tarde cinza. Um dia de sol que vive no horizonte. A coragem. Com ela vem junto a alegria, sim, essas palavras tão etéreas que eu queria para sempre grudadas em minha boca. Tantos meses adiando, procrastinando. Uma hora qualquer vai ser a certa. E quando for vai ser tão bom.

E de repente enfim é a hora. Um telefonema que resolve tudo. Os fantasmas que a gente cria: vai ser difícil vai dar tudo errado vai complicar. E aí a hora que a coragem se apresenta, tudo fácil como um telefonema de dois minutos para desenrolar qualquer coisa que parecia impossível. Tão simples. E uma risada que surge sem vergonha, aumentando a música, cantando junto. É a alegria. Ela chegou.

E é como um verão, uma segunda-feira de folga na praia, um banho de mar seguido de banho de piscina. De vez em quando estar como se fosse um dia de férias, Rolling Stones tocando altão para não te deixar esquecer que você é um arco-íris (estiagem colorida depois da chuva)

 

(e viva o rock ´n´roll)

voz no ouvido

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por Mariana Paiva

Você ainda tem voz pra cantar. Então aperte o rec e cante aquela canção tão bonita de Chet Baker que você gosta tanto. Ainda tem voz. Se desafinar é porque tá cantando, então continue. Até o final. Mesmo que a voz suma, mesmo que as cordas vocais peçam uma trégua. Cante. Cante do jeito que sabe e vai ser lindo.

Mas só vai ser lindo se for no ouvido que é o amigo da voz. Qualquer outro ouvido corre o risco de se distrair pensando no trabalho, na conta pra pagar, no amanhã. Ou de achar feio, pensar que a métrica podia ser melhor, dizer que tá fora do tom. Pra ser lindo tem que ser o ouvido certo. Não adianta teorizar e não ser o ouvido ideal. O ouvido certo apenas o é, sem nenhuma teoria nem complemento. É definitivo, intransitivo em sua escuta de transformar tudo em lindeza.

E a voz que fica tão bonita pro ouvido certo. Que se entrega em refrões apaixonados sem se importar se, ao falar de saudade, a voz embarga um pouco. Quem foi mesmo que escreveu essa música? Se a melodia for triste, troque por outra. Mas cante. Mesmo desafinando. Pro ouvido certo vai ser sempre lindo. Cante. Você ainda tem voz pra cantar.

* a ilustração é de Rebecca Dautremer

vamos de mãos dadas

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  • por Mariana Paiva

Desde que a gente é pequeno é assim: um pulo que parece um abismo muito grande, um sabor diferente, tomar injeção, atravessar a rua. Tudo (absolutamente tudo) fica mais fácil de mãos dadas. É um jeito bom de vencer o medo, inaugurar o mundo, de saber que com companhia a vida fica melhor. Disso quem é pequeno sabe demais. Mas o tempo passa, a gente estica e fica achando que virou super, que não precisa mais do outro. Bobagem: precisa sim.

Foi pensando nisso que terminei de ler Bordados, história em quadrinhos de Marjane Satrapi (a mesma de Persépolis, aquela lindeza). No poder que cada história tem, e que ela se torna frutífera mesmo quando é compartilhada. “Ah, mas aquele videozinho do Segredo diz pra gente ser feliz sozinho, pra fazer boca de siri quando o assunto for a própria vida”.  Fica a dica: “feliz” e “sozinho” na mesma frase só funcionam bem um em oposição ao outro.

Dessa alegria em compartilhar sabem também as personagens de Bordados. Reunidas em torno do chá servido no samovar, as mulheres iranianas que fazem parte da família de Marjane revisitam suas próprias histórias e por muitas vezes terminam rindo de dramas vividos. É revolucionário e sutil: a mulher, historicamente isolada nas quatro paredes das casas entre cuidados com seus maridos e filhos, se une a outras para que a vida fique mais leve. E feliz, essa que é a melhor palavra.

Contadas para o grupo de mulheres, as histórias de traições, casamentos forçados e outras dores são transformadas em matéria-prima para que a conversa se estenda mais um pouquinho. A virgindade e os bordados (a cirurgia de reconstituição do hímen) também vêm à tona: é que, apesar do desejo que sentem depois de uniões que deram errado, algumas mulheres ainda pensam em se preservar virgens para agradar ao próximo marido. Mas Bordados é uma história de protagonismo feminino, de uma roda de mulheres juntas como um lugar de acolhimento e transformação, tão seguro e confortável como andar de mãos dadas.

 

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Bordados
Marjane Satrapi
editora Companhia das Letras
136  páginas
R$ 34