O risonho cavalo do príncipe

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por Mariana Paiva

O acaso continua dono de minhas mãos nas bibliotecas. Quando vejo, chego em casa com um livro sobre o qual nunca li uma linha ou indicação, sem pretensão de ser bom ou ruim, nada de expectativas. Uma novidade sem precedentes essa aposta sem saber o que virá pela frente: mas não é assim também viver? Ser uma leitora aleatória tem me ensinado muito disso.

Voltei para casa com “O risonho cavalo do príncipe”, de José J. Veiga. Gostei do título e trouxe, tal qual menino pequeno quando encarna num brinquedo por causa das cores. E a surpresa que se escondia nas páginas eu não fazia ideia. Essa já era a melhor parte, antes mesmo de começar a leitura.

Só que foi bom. Tão bom que eu, que leio muito rápido, me amarrei pra chegar ao fim porque tava gostando. E a história é sobre acaso: duas crianças e uma tia que, só compreendendo poucas palavras de um livro em alemão deixado para trás por um viajante, decidem inventar a seu gosto uma história. A tia, que sabia um alemão bem rasteiro, conseguiu decifrar apenas que o livro falava de cavalo, príncipe, computadores, porcos e arqueologia. De repente, ela, Mem e a sobrinha César não precisavam de mais do que isso para criar sua própria (e encantadora) história, também sobre acasos. O risonho cavalo do príncipe é um livro sobre acasos que tem outro livro sobre acasos dentro: o do alemão Karl, que sai da Alemanha rumo à Etiópia para procurar o antigo reino das Galimátias. Ele e o guia local Alkilov se agarram aos acasos para seguir viagem.

E a graça é essa mesmo (do livro e também da vida): por vezes não saber onde se está e ir apenas tateando no que acontece para ir adiante. Assim como a história construída por tia Basília, Mem e César, assim como a viagem de Karl e Alkilov, José J. Veiga deixa o leitor passear à vontade por seus devaneios num livro absolutamente divertido e crítico. Seja no cavalo do príncipe que ri diante do elogio aos reinos ou no nojo/estranhamento que os alemães sentem de estar em território africano, tem espaço para crítica. Tudo sem afetação e cheio de ironia.

Ele conhecia bem a mentalidade de europeus que insistem em levar para o estrangeiro até os seus hábitos alimentares, como se fossem a dentadura, a úlcera, a cirrose, e com isso perdem o melhor da viagem, que é a aventura de conhecer comida e sabores diferentes. Por isso é que os restaurantes dos hotéis cinco estrelas do mundo inteiro são detestáveis: a comida tem sempre o mesmo gosto, isto é, nenhum.

“O risonho cavalo do príncipe” é daqueles livros em que o autor abre espaço para quem está lendo criar sua própria história, sem finais demasiadamente conclusivos. São duas histórias, uma dentro da outra, e ainda tem lugar para quem lê. Coisa gostosa de ver na literatura, ainda mais com uma linguagem tão livre e tranquila. Livro bom de fazer companhia na viagem, na praia, no dia de chuva, sem afetação canônica nem nada parecido: talvez seja esse mesmo o maior mérito dessa aventura dupla de José J. Veiga.

 

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como uma velha amiga que volta

shiva

por Mariana Paiva

Tudo pode mesmo acontecer (ou então é a lua em gêmeos). É essa mágica de um dia acordar e se surpreender gostando, gostando cada vez mais, se espalhando como gato em chão limpo. Sem muita pista você descobre que a grande novidade é estar infinitamente bem: um dia, depois outro e então fica simples. Você lembrou como. As saudades agora são todas suas amigas, sem choro, como aquele xampu de criança: chega de lágrimas.

Como Chico que, depois de sete anos longe do público, reaparece entoando Voltei a cantar. Aquela confiança de meio-dia, aqueles passos largos e certos, sem medo de sol forte nem de vento. A alegria de passar falando com todo mundo, sorrindo, fazendo o que tem de ser feito. E, de repente, uma vontade de mudar tudo, de trocar as coisas todas de lugar, de olhar pra novidade. É bom, né?

E tudo isso ser simples. Fácil como ser infinita, como uma música boa esquecida que de repente a gente começa a cantarolar e descobre que ela nunca saiu da gente. Ah, alegria, puxa a cadeira e senta confortável que eu tenho muita história pra te contar

 

  • na foto, Shiva, deus  hindu da destruição e da transformação

Música boa?

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  • por Mariana Paiva

 

Sentada na mesa ao lado da minha no restaurante, a professora comenta comigo a alegria de apresentar Os Saltimbancos e Palavra Cantada aos alunos de cinco e seis anos. Elogio, acho bonito o interesse por gente, por dividir com o outro o que a gente gosta. Mas foi cedo demais, confesso. Nem meio minuto depois ela arrematou: “De vez em quando algum chega cantando rap na escola, eu não digo que é errado, mas tento mostrar música de verdade pra eles”.

“Música de verdade”, ela diz. O que é música de verdade? Música “boa”? Quem decide o que é bom e o que é ruim? Dentro dessa teoria, Mano Brown  é música ruim e Bach (outro que a professora citou) é música boa. De verdade. É? É mesmo?

Quando eu era pequena, meus pais me apresentaram a Chico Buarque com um disco dele com o Quarteto em Cy (“Chico em Cy”). A gente também ouvia A-Ha (“Hunting high and low” bombava nas fitas K7 lá em casa). E aí que eu achei de ouvir rap. Tinha uns 10 anos quando me apaixonei por Racionais MC´s. Ouvia “Fim de semana no parque” dia sim dia não, e tenho a memória de boas viagens de ferry boat em que eu preferia ficar dentro do carro (anos 90 podia tudo mesmo) ouvindo minha fita K7 deles. Na verdade, era uma cheia de gravações de Xuxa, mas aí eu cresci (um pouco, porque gente de 10 anos não se governa) e gravei Racionais por cima. Dessas ensolaradas viagens aprendendo a cantar um universo tão diferente do que eu vivi eu nunca esqueci.

Pois é, professora. O rap me criou também e tô aqui de boa. Reconheço Ravi Shankar nos primeiros acordes, adoro Liszt e acho “O homem na estrada”, dos Racionais, uma das coisas mais atuais que tem. Não é um contra o outro: por aqui, em minha vitrola, Rincon Sapiência se mistura de boa com Carole King, Sabotage com Simon & Garfunkel, Leonard Cohen com Timbalada. Se vacilar e a luz apagar, ainda sei de cor um Ragatanga ou um Cerol na Mão. Balanço o pescoço pra imitar “Um morto muito louco” e canto Cream em alto e bom som no carro. Lá da estante, a coleção de clássicos da Caras assiste a tudo sem se chocar. Mozart, Beethoven,  todo mundo feliz.  Música de verdade é a que toca a gente, professora. E vou terminar citando seu preferido, Mano Brown: “deixa o menino”…

 

  • a ilustra linda é a Eleanor Rigby de Moidsch

natureza humana

andrelouco

por Mariana Paiva

Coisas incríveis acontecem quando a gente deixa o acaso trabalhar. Livro, por exemplo. Tava querendo ler alguma coisa que eu não fizesse ideia de como seria. Nenhuma informação anterior (ou praticamente nenhuma), nenhuma nota de jornal falando sobre. Foi assim que andei por várias prateleiras da biblioteca até encontrar o que procurava: “André Louco” (1978), de Bernardo Élis.

O que eu sabia dele: que era goiano e objeto de pesquisa de Nina, minha amiga. Era isso. A primeira sorte que eu dei foi ter, logo no início do livro, uma ficha autobiográfica dele, que me contou um monte de coisas. Soube que, por conta de uma birra entre seu pai e o mestre-escola da cidade, Bernardo teve que estudar em casa. E que, sendo ele aniversariante do dia 15 de novembro, seu pai lhe dizia que eram em sua honra os foguetes estourados e a bandeira nacional hasteada por toda parte em Corumbá.

E então o livro: “André Louco” reúne cinco contos, incluindo o que empresta o nome ao livro. É nele, aliás, que está o que o livro tem de melhor: aterrorizados com André, um louco que sai a matar quem encontra pelo caminho, os habitantes da cidade se reúnem para agir contra ele.  São os gritos de André a única coisa que foge ao controle da aristocracia local, reunida em salas de visita para conversar amenidades e se gabar de feitos.

precisamos do Louco, seu João. Precisamos muito dele. Sem o Louco ninguém aguenta a insipidez da cidade.

O dia em que os gritos do louco enfim não são ouvidos, entretanto, é um tédio.

E o resto do dia o gramofone alegrou funebremente a cidade, mais deserta, mais muda, onde pairava um vácuo enfadonho, com vozes longes de gente conversando, menino chorando

Entre exorcismos e outras soluções religiosas oferecidas para livrar a cidade de André Louco, o silêncio é conquistado às custas de muitos gritos. Para parar a violência, mais violência. Paradoxal e perfeito como a (des)humanidade, ainda mais nesses tempos.

No último conto do livro, “A lavadeira chamava-se pedra”, mais uma grata surpresa. A lavadeira queria dar uma gaita de presente a seu menino, mas não podia, não tinha dinheiro. E exatamente o ladrão da cidade, o conhecido e antigo gatuno das ruas do local, é quem oferece a prenda. Um coração bom no peito de quem está acostumado a subtrair objetos dos outros, como é que pode?

Nas páginas do livro, Bernardo Élis espalha um tema interessante: o ser humano cheio de paradoxos. Do outro lado, quem lê chega a ter pena de André Louco. Torcer para que a vez de Paratudo chegue. Talvez até chore junto com a lavadeira no fim do conto. Vai entender essa natureza humana tão humana que Bernardo Élis insiste em mostrar…

 

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André Louco
autor: Bernardo Élis
editora: José Olympio
102 páginas

La la la la la la la

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  • por Mariana Paiva

Eu sabia que você ia rir. Que a voz ia sumir enquanto ria, ria, ria. É muito solto mesmo. Eu sabia. E é desses saberes ancestrais: na hora de mentir a gente ri também. Ri da mentira e ri da verdade. Podia ser sério mas é risonho, foi tudo outro dia mas já faz muito tempo. Uma encarnação inteira errando letra de música (assim fica fácil escrever).

Fala um verso e ri. Mais outro. Ri também. A boca ri porque vai sempre escolher rir a chorar. Eu não disse? Eu sabia que você ia rir, boca. Eu sabia que você ia fechar todinho pra rir junto, olho. Sabia de saber ancestral.

2018 tem copa do mundo. A sala ainda estará lá, no mesmo lugar? E aquele medo de elevador? Tá tudo estável? Mais ou menos. A resposta é sempre mais ou menos e riso, riso, riso. Quem sabe um dia esteja tão estável que desmorone. E aqueles versos “la la la la la la la la”? Esses não dá pra esquecer. São simples mas sem erro. Devem ser assim mesmo as coisas de certeza da vida: definitivas. Até bobas de tão óbvias. Tanto que a gente até duvida delas.

No mais, tô lendo Derrida pra desconstruir

 

  • a imagem é de Nan Lawson

As palavras

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  • por Mariana Paiva

Existem as palavras, e delas não dá pra ter medo. Cada uma é uma coisa (ou várias), e o bom é isso mesmo. Pudim, por exemplo, só lembra o de minha vó. Há aqueles no potinho, os branquelos, os molengos que mais parecem um flan. Não lembro deles sem algum esforço. Rápido quando ouço “pudim” eu lembro mesmo o de minha vó Iá: douradinho e aerado graças a um segredo na receita que não conto aqui.

E tem domingo. Domingo é outra palavra que não me deixa dúvidas. Tem que ter sol, tem que ser perto do mar e sem hora pra chegar nem ir embora. De segunda-feira também já gostei, eu e a palavra que assusta tanta gente já fomos amigas por nossos próprios motivos. Só sei dizer que era feliz.

O resto eu deixo fluir. Escrevo para não perder o costume das palavras. “Muito”, por exemplo, é uma que a gente estranha se passa algum tempo longe. Fala anasalado, como se houvesse um “n” depois do “i”. Não tem. Mas a gente fala assim mesmo, assim que é bom, é mais bonito talvez.

Para o que sinto, busco nome à toa por aí, mesmo com alguma preguiça de carregar dicionários tão pesados. Criamos tantas palavras que desconhecemos quase todas. As essenciais ainda sigo procurando. Talvez um dia eu invente.

O sal da terra

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por Mariana Paiva

Não importa que já tenham passado mais de dois anos desde o lançamento de “O Sal da Terra”, documentário de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado sobre a obra do fotógrafo Sebastião Salgado.  Qualquer hora é boa pra ver um filme desse quilate: mais que expor imagens como um Power Point de fotografias ou deixar Sebastião Salgado narrando por horas, o documentário se debruça sobre o ser humano. É esse seu maior mérito.

E é assim mesmo que está avisado desde o início do filme: o sal da terra é o ser humano. A gente toda desse mundo, as pessoas que caminham indo e vindo. O título é uma referência a um trecho bíblico de Mateus: “Vóis sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor?”. Ser o sal de uma terra inteira tem suas responsabilidades, em frente ou por trás da lente da câmera. Sebastião sabe. Por isso deixa de fotografar o urso branco, mesmo muito de perto, porque faltam elementos na paisagem. A cabeça entre as mãos, o fotógrafo abaixa a câmera. Agora não. Ou também porque o que se apresenta em frente à lente dói demais. Lágrima em lugar de clique. Porque para ter sal precisa também ser na hora certa.

E uma lembrança de que saudade também serve de matéria-prima pra arte: Sebastião viaja a América Latina inteira para chegar mais perto do Brasil, de onde saiu por conta da ditadura militar.  Entre os destinos que percorre, a dor de testemunhar a dor do outro machuca o fotógrafo. “Minha alma ficou doente”, Sebastião diz. Correr pra buscar consolo em outras paragens, na natureza praticamente intocada de Genesis.  Os animais se achegando, baleias e barcos pequenos convivendo em harmonia. Uma ternura possível. E então a floresta replantada no próprio peito do fotógrafo, os olhos de novo prontos pro que vier…