vamos de mãos dadas

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  • por Mariana Paiva

Desde que a gente é pequeno é assim: um pulo que parece um abismo muito grande, um sabor diferente, tomar injeção, atravessar a rua. Tudo (absolutamente tudo) fica mais fácil de mãos dadas. É um jeito bom de vencer o medo, inaugurar o mundo, de saber que com companhia a vida fica melhor. Disso quem é pequeno sabe demais. Mas o tempo passa, a gente estica e fica achando que virou super, que não precisa mais do outro. Bobagem: precisa sim.

Foi pensando nisso que terminei de ler Bordados, história em quadrinhos de Marjane Satrapi (a mesma de Persépolis, aquela lindeza). No poder que cada história tem, e que ela se torna frutífera mesmo quando é compartilhada. “Ah, mas aquele videozinho do Segredo diz pra gente ser feliz sozinho, pra fazer boca de siri quando o assunto for a própria vida”.  Fica a dica: “feliz” e “sozinho” na mesma frase só funcionam bem um em oposição ao outro.

Dessa alegria em compartilhar sabem também as personagens de Bordados. Reunidas em torno do chá servido no samovar, as mulheres iranianas que fazem parte da família de Marjane revisitam suas próprias histórias e por muitas vezes terminam rindo de dramas vividos. É revolucionário e sutil: a mulher, historicamente isolada nas quatro paredes das casas entre cuidados com seus maridos e filhos, se une a outras para que a vida fique mais leve. E feliz, essa que é a melhor palavra.

Contadas para o grupo de mulheres, as histórias de traições, casamentos forçados e outras dores são transformadas em matéria-prima para que a conversa se estenda mais um pouquinho. A virgindade e os bordados (a cirurgia de reconstituição do hímen) também vêm à tona: é que, apesar do desejo que sentem depois de uniões que deram errado, algumas mulheres ainda pensam em se preservar virgens para agradar ao próximo marido. Mas Bordados é uma história de protagonismo feminino, de uma roda de mulheres juntas como um lugar de acolhimento e transformação, tão seguro e confortável como andar de mãos dadas.

 

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Bordados
Marjane Satrapi
editora Companhia das Letras
136  páginas
R$ 34

 

 

 

 

E a Bahia só tem uma

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por Mariana Paiva

Vou te contar: de saudade não se morre. Mas é que a visão vai ficando turva de tanto asfalto, de tanto dia que se arrasta até que enfim se poste diante dos olhos meu mar. É uma faixa de água que se estende de um canto a outro da costa, tem a baía, olhe, de geografia eu não entendo muito não. De Bahia, sim.

Bahia é aquela saudade que fez Arthur dizer, no meio da corrida de Uber em São Paulo, que todo lugar é bom, mas que a Bahia é diferente. Que lá é melhor. E olhar dele passeou sonhou viajou um pouquinho pro vilarejo pequenininho onde nasceu, onde vai, se Deus quiser, no fim do ano. Matar saudade. Quem tá longe da Bahia só fala nisso.

Ou então Bahia é aquela alegria infantil no olhar de Lázaro em andar pela calçada perto do mar . Passar um grupo de pessoas dizendo que mais tarde vai vê-lo. “Que horas?”, Lázaro quer saber. “Sei não, depois da praia”, a resposta vem. Depois da praia. Porque  na Bahia se sabe que antes da praia não tem nada: que se a Bahia é, é depois de entrar no mar, de pedir benção à sereia. E  um olhar brincalhão querendo correr sobre  a rampa do Teatro Castro Alves.  Na Bahia também fico menina, Lázaro, eu entendo.

E Vânia, do outro lado do balcão de café no supermercado. O riso solto tirando o café da máquina, riso solto servindo, riso solto lembrando meu nome quando chego pela segunda vez. E vem a pergunta sorridente: “Você é da Bahia?”. Eu sou. “Então é duas”, ela anuncia, morrendo de rir, já com a mão no ar pra eu bater a minha. Bahia também é a mão amiga de Vânia na minha ali por instantes, receita pra chegar em casa mesmo mais de dois mil quilômetros além. O resto é domingo. E espera.

 

  • a foto é minha mesmo, de meu Portinho da Barra❤
  • o título é um pedaço da canção Beira-Mar, de Gilberto Gil

 

o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente

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por Mariana Paiva

*

Cresci com meu pai cantarolando Belchior pela casa. Era a vida ficar um pouquinho dura e ele já me repetia os versos  “A minha alucinação é suportar o dia a dia”. Gostar eu não gostava não. Era uma raridade eu não querer uma música trazida por meu pai, mas aquelas de Belchior eu não queria. Porque ele cantava rápido. Embolava as palavras. E eu queria tudo dito devagar. Pra que a pressa? Eu achava que tinha todo o tempo do mundo.

Boba. Bastou a vida me chamar com seus dias que passam rápido demais que fui me aconchegar em Belchior. Não faz muito tempo não, aliás: foi bem quando ele caiu no mundo sem destino que me vi precisando dele. Era uma rebeldia de cantar como desse vontade, correr contra o desejo da música de ir com calma. Sim, porque a vida não vai devagarzinho. É deitar pra dormir e acordar e tá tudo diferente. Já. É sempre já. E eu descobri.

Precisei de uma música pra (me) abraçar.  No horizonte estava um Belchior sumido no mundo e que de repente passou a fazer todo sentido pra mim. Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção. Aquele coração selvagem dentro do meu peito enfim musicado, transformado em verso do início ao fim. Um repeat infinito pra vida inteira, vontade de gravar na pele pra nunca esquecer. Cante rápido mesmo, Bel. Embole as palavras e tenha pressa porque você tá certo: o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente, tome um refrigerante, coma um cachorro-quente. Onde quer que você esteja nesse mundão de meu Deus, celebre esse som, essa fúria, essa pressa de viver. Na contramão que anda todo mundo que sente, é bem mais alegre com sua voz pra cantar meu hino pra mim

 

Feliz 70, my dear

Quarenta dias

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Por Mariana Paiva

Alice, também sou brasileirinha. Cá comigo eu queria escrever de outro jeito, falar pomposo do livro que conta sua história, mas não. Somos irmãs e é assim que tenho que dizer de você. Também me vi perdida sem saber voltar pra casa: já faz quase um ano que a bateria do celular acabou e as ruas me pareceram todas iguais. As mesmas casas, os mesmos muros de hera, as mesmas ruas divididas em quadras. Parei numa porta aberta qualquer e um tal de seu Roberto me disse: “Sua casa é na terceira rua à direita, é só seguir e virar que chega lá”. Minha casa ensinada pelos outros. A primeira vez.

Sou de longe daqui também. Nem sempre chego onde quero. Por vezes os caminhos me enganam e tenho de me contentar com um destino que surge e não escolhi.Também rezei para que houvesse algum Cícero Araújo que, perdido da mãe, virasse assunto e me distraísse de mim. O tempo foi passando e me vi ficando forte, ficando grande. Quando o céu fica muito cinza, confesso que ainda vacilo: fico sonhando com meu verão de antes e longe daqui. Meu verão de quase um ano inteiro, uma vida inteira, todo dia de veraneio na ilha de Itaparica. A areia branca das dunas, o pé descalço, a cara no sereno até tarde.

Isso você entende, né, Alice? Todo mundo ao redor sabia bem da Professora Póli e de mim também. Chegando aqui, pude ser qualquer pessoa, que nem você, aí pras bandas do sul. Seus quarenta dias para mim foram 365 e o relógio ainda contando. Queria um canto que coubesse essa risada escancarada de quem conhece palavras secretas como campado, mulambento e barril. De quem sabe que se o problema é muito e não cabe numa palavra só, é barril dobrado. Um lugar onde o ouvido seja amigo de minha fala cantada, eu mesma ondinha do mar do Rio Vermelho que veio quebrar no concreto.

Só essa saudade que é grande demais para sete letras e talvez para todas as milhares que compõem sua própria história, Alice. Também me procuro nas ruas com nomes desconhecidos, exploro esse novo lugar com olhos cansados e curiosos. Eu que ainda não entendo o kitsch do cuscuz paulista e que enfrento a saudade com mariscada e dendê. Com sorte, entre esses dias e noites que se sucedem, quem sabe uma hora a gente se  encontre em casa, Alice

 

Quarenta dias
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
248 páginas
R$ 39,90

 

 

Carta a P.

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por Mariana Paiva

*

P,

A força eu descobri do jeito inverso: na sessão da tarde, os heróis já são fortes e por isso se aventuram. Me aventurei pra descobrir a força ancestral guardada nas entranhas, não é louco isso?  Mas vou guardar a descoberta como um segredo bom de saber, exceto pra você. Você não é todo mundo: tem essa alegria que explode de repente e mancha tudo de risada boa (mesmo que a piada seja ruim).

Aliás era disso mesmo que eu queria falar: a alegria desordenada de quem gosta de viver. Aqui faz frio, e cá entre nós, acho mesmo que o mar faz uma falta danada. Não só pra mim.  Tenho feito pesquisas empíricas e cada vez mais percebo que a brisa do mar todo dia tem efeitos muito positivos para o cérebro. Ajuda a mover os móveis da casa para ver tudo diferente, ajuda a passear nas feiras, conversar com as pessoas, comprar flores para enfeitar tudo. O enfeite – aqui em minha teorização absolutamente minha – está diretamente ligado às propriedades da brisa do mar. Inclusive ajuda a não olhar o relógio (ou “destemperar o tempo”, como você me disse já).

Faz frio mas é só um pouquinho porque não tem alma acostumada à alegria que escolha tão longamente o inverno. Tô ouvindo música nova, comendo o que não comia antes, aproveitando as novidades. Continuo sem raiz fincada.  Only this darkness before você sabe. Talvez um certo inferno astral. Palavra pra que? Coração sabe quando. Talvez um hora dessas eu apareça por aí, olhos sorrindo outra vez, vestido solto, pernas de fora, como se nunca tivesse deixado de ser verão, um beijo

(just pretty lies)

  • o desenho que te mando é de Manara. ele é que sabe das coisas

 

A mulher e a cozinha da história

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Por Mariana Paiva

Houve um tempo em que as mulheres posavam para fotos oficiais como protagonistas. Houve um tempo, sim, e não faz muito. E então um novo governo com o passado eternizado na fotografia: ternos bem cortados (possivelmente italianos), gel nos cabelos, cara de sucesso. Um governo feito somente de homens. “Mas o critério tem que ser mérito, não gênero”, dirão os incautos. Sim,  e é por essa mesma razão que precisamos das mulheres nos ministérios.

Mas que não seja um ministério de princesas. De moças de fala mansa e salto 15, mais preocupadas em ajeitar a gravata do par do que com seu próprio discurso. Que não sejam Belas, Auroras ou Brancas de Neve como tantas menininhas em suas fantasias. Que sejam Carolinas de Jesus, Fridas, Clarices, Hildas. Mulheres capazes de escrever suas próprias histórias, escolhendo o caminho de acordo com o critério mais importante do mundo: a vontade.

Basta abrir a porta e constatar: elas já estão espalhadas por aí. Nas chefias das empresas, nos cargos principais das redações, nas universidades, nas ruas. Tanto caminhar apesar do mundo cor de rosa que tentam lhes atribuir como único possível. As mulheres resistem. De salto ou de rasteira, com filho ou sem, sangrando todo mês e sobrevivendo assim mesmo. Dando plantão, acordando cedo, pulando a hora do almoço. É que ser mulher tem disso: é preciso uma força a mais para abrir espaço num país que às vezes prefere ser uma foto só de homens.

Ser mulher e viver no Brasil é sobreviver. É deixar a delicadeza de lado para enfrentar as ruas cheias de cantadas e viradas de rosto, os assediadores nos ônibus, os salários menores no trabalho. É ser perguntada sobre maternidade nas entrevistas de emprego e ser preterida se a resposta for sim. É passar a vida inteira resistindo, exigindo respeito, falando com firmeza. Ser mulher no Brasil – olhando bem aquela foto nova do presidente e de seus ministros – dá um desgosto tão grande que talvez fosse melhor nem ser. À revelia desse rancor que a empurra de novo para a cozinha da história, a mulher resiste. O nome de sua força ancestral: coragem.

 

  • a pintura é de Frida Kahlo

Queda livre

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por Mariana Paiva

Ir por onde nunca fui. Os pés descalços. Quero saber como é o mundo. O que é que tem depois dali? Vamos. Você não tem medo? Claro que tenho. A perna treme sozinha, o coração dispara mas eu vou. Eu vou porque sou eu que escolho. Em frente.

Alguém devia avisar: liberdade vicia. Vento na cara, novidade, velocidade. E o depois do limite. Agora posso mais. Fiquei poderosa, dona do mundo, sabe até onde eu posso ir? Nem eu. E a graça ser exatamente essa: ser grande, ilimitada. Nada de “conhece-te a ti mesmo”. Antes disso, desconhece-te. Esquece de onde você achava que começava e terminava. Reinventa tudo. Sem começo, sem meio, sem fim. Livre assim.

Me desenha como um passarinho. Sim, voando. Mas se é assim mesmo que eu sonho? Eu sei voar. Tem dia que a asa acorda tímida, mas lá de dentro, um pedacinho quente me lembra que sei. E então um caminho novo que faz o olho brilhar. Vai ou não vai? Vou sim. Quem chama é natureza de bicho selvagem, criado solto. Fera risonha que gosta de carinho.

Faz muito tempo a grande verdade que Ivan disse. Uma leoa correndo de cabelo solto e o vento, o vento. Uns poemas no meio do caminho. O vento. A leoa correndo sem parar. Pra que parar, afinal? Bom é ir. Coração bem sabe, esquece não.

 

 

* para Ivan Cerqueira, por uma lembrança tão boa

** para Iracema e Dora, que voam junto

*** a ilustra linda é de “El Gaucho”, de Milo Manara❤

**** trilha sonora: “Queda livre” – Cascadura