Volto semana que vem

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  • por Mariana Paiva
Muito além das tão conhecidas narrativas de ditadura militar, em que abundam os relatos de prisões arbitrárias e torturas, há as pessoas. E é esse o universo que Maria Pilla descortina em seu livro “Volto semana que vem”. Como numa espécie de diário escrito em primeira pessoa, Maria passeia pelos anos de sua história: a presa política já foi criança, já caminhou por capinzal de guarda pó branco com os colegas para chegar à escola.

Se há um grande mérito neste que é um grande livro sobre a ditadura militar é exatamente sua diferença dos demais: ele é humano, demasiadamente humano. Porque “Volto semana que vem” mostra a trajetória da militante política Maria Pilla sem resumi-la a isso (embora isso seja grande parte de sua história). Apresenta a menina que gostava de voltar para casa de lotação com o pai, a moça cujo coração quase sai pela boca depois de um convite para o cinema (o filme era Easy Rider). Que passeia pela rua Augusta, que vê os conhecidos serem levados e desaparecerem nos porões da ditadura, que se alegra ao sentir o cheiro do manjericão na comida da prisão de Olmos, na Argentina.

Um livro fragmentado, exatamente como quem passa pelas agruras da vida sem esquecer do gosto bom de rabanada. Que ainda se lembra de uma promessa feita a queima-roupa ao pai, avisando que voltaria na semana que vem, e que só se sabe cumprida muitos, muitos anos depois. E que, à revelia das violências e das privações todas de liberdade, ainda lembra de como era não sentir medo:

Agora a escola ficava longe de casa. Tomava-se o bonde até o fim da linha e depois seguia-se a pé pelo capinzal dos terrenos baldios. Todos viam aquela revoada de crianças com seus guarda-pós brancos. O medo dos outros ainda não tinha sido inventado.

“Volto semana que vem”, de Maria Pilla, é, antes de tudo, uma obra de resistência, uma recusa a se envergar diante do peso da vida. Ou quem sabe um ponto de seguimento na história, sensível e necessário.

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Volto semana que vem
Maria Pilla
Cosac Naify, 96 páginas

Muito além do jardim

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por Mariana Paiva

Sou menina amarela de apartamento. Ou melhor, era. Fui até cerca de 60 dias atrás, quando me mudei para uma casa. No quintal dela, um jardim tomado por mato de todo jeito, restos de entulho, telhas soltas. Comecei então a ver coisas que nunca tinha visto. Meus olhos se abriram nas prateleiras dos mercados para luvas de jardinagem, enxadinhas, pás, mangueiras. Mudinhas de plantas. Estava ao meu alcance transformar aquela bagunça no que eu quisesse. Descobri rápido.

Aprendi a gostar daquele tom marrom típico de terra. Parei de ter nojo de minhoca quando peguei uma na mão, cheia de uma coragem que nem sabia que tinha. Capinei, tirei o lixo, fui jogando pro canto tudo o que eu não queria mais pro jardim. Mesmo achando um ou outro matinho mais bonitinho, aprendi a arrancar. Mato não pode ficar no lugar da planta que você quer. Aí uma lição que vou levar pra vida, e vale pra tudo: gente, trabalho, amor, amizade.

E então a lição maior: a paciência. Esperar um dia e outro e mais outro até ver que o hortelã quis ficar. Que o pé de manjericão agora balança frondoso e gordinho com o vento que passa. Jardim pede água, carinho, tempo. Pede espera. Pede um olhar de manhã cedinho pra ver se todo mundo tá feliz na terra nova. É se derreter ao ver mais uma pimenta vermelhinha pendendo do pé. Uma tímida pitanga anunciando uma multidão futura delas. As rosas colorindo tudo. Primavera pode ser sempre, coração sabe. Jardim é um jeito bom de aprender amor.

she´s like a rainbow

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por Mariana Paiva

Há uma novidade imprevista que é capaz de ensolarar qualquer tarde cinza. Um dia de sol que vive no horizonte. A coragem. Com ela vem junto a alegria, sim, essas palavras tão etéreas que eu queria para sempre grudadas em minha boca. Tantos meses adiando, procrastinando. Uma hora qualquer vai ser a certa. E quando for vai ser tão bom.

E de repente enfim é a hora. Um telefonema que resolve tudo. Os fantasmas que a gente cria: vai ser difícil vai dar tudo errado vai complicar. E aí a hora que a coragem se apresenta, tudo fácil como um telefonema de dois minutos para desenrolar qualquer coisa que parecia impossível. Tão simples. E uma risada que surge sem vergonha, aumentando a música, cantando junto. É a alegria. Ela chegou.

E é como um verão, uma segunda-feira de folga na praia, um banho de mar seguido de banho de piscina. De vez em quando estar como se fosse um dia de férias, Rolling Stones tocando altão para não te deixar esquecer que você é um arco-íris (estiagem colorida depois da chuva)

 

(e viva o rock ´n´roll)

voz no ouvido

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por Mariana Paiva

Você ainda tem voz pra cantar. Então aperte o rec e cante aquela canção tão bonita de Chet Baker que você gosta tanto. Ainda tem voz. Se desafinar é porque tá cantando, então continue. Até o final. Mesmo que a voz suma, mesmo que as cordas vocais peçam uma trégua. Cante. Cante do jeito que sabe e vai ser lindo.

Mas só vai ser lindo se for no ouvido que é o amigo da voz. Qualquer outro ouvido corre o risco de se distrair pensando no trabalho, na conta pra pagar, no amanhã. Ou de achar feio, pensar que a métrica podia ser melhor, dizer que tá fora do tom. Pra ser lindo tem que ser o ouvido certo. Não adianta teorizar e não ser o ouvido ideal. O ouvido certo apenas o é, sem nenhuma teoria nem complemento. É definitivo, intransitivo em sua escuta de transformar tudo em lindeza.

E a voz que fica tão bonita pro ouvido certo. Que se entrega em refrões apaixonados sem se importar se, ao falar de saudade, a voz embarga um pouco. Quem foi mesmo que escreveu essa música? Se a melodia for triste, troque por outra. Mas cante. Mesmo desafinando. Pro ouvido certo vai ser sempre lindo. Cante. Você ainda tem voz pra cantar.

* a ilustração é de Rebecca Dautremer

vamos de mãos dadas

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  • por Mariana Paiva

Desde que a gente é pequeno é assim: um pulo que parece um abismo muito grande, um sabor diferente, tomar injeção, atravessar a rua. Tudo (absolutamente tudo) fica mais fácil de mãos dadas. É um jeito bom de vencer o medo, inaugurar o mundo, de saber que com companhia a vida fica melhor. Disso quem é pequeno sabe demais. Mas o tempo passa, a gente estica e fica achando que virou super, que não precisa mais do outro. Bobagem: precisa sim.

Foi pensando nisso que terminei de ler Bordados, história em quadrinhos de Marjane Satrapi (a mesma de Persépolis, aquela lindeza). No poder que cada história tem, e que ela se torna frutífera mesmo quando é compartilhada. “Ah, mas aquele videozinho do Segredo diz pra gente ser feliz sozinho, pra fazer boca de siri quando o assunto for a própria vida”.  Fica a dica: “feliz” e “sozinho” na mesma frase só funcionam bem um em oposição ao outro.

Dessa alegria em compartilhar sabem também as personagens de Bordados. Reunidas em torno do chá servido no samovar, as mulheres iranianas que fazem parte da família de Marjane revisitam suas próprias histórias e por muitas vezes terminam rindo de dramas vividos. É revolucionário e sutil: a mulher, historicamente isolada nas quatro paredes das casas entre cuidados com seus maridos e filhos, se une a outras para que a vida fique mais leve. E feliz, essa que é a melhor palavra.

Contadas para o grupo de mulheres, as histórias de traições, casamentos forçados e outras dores são transformadas em matéria-prima para que a conversa se estenda mais um pouquinho. A virgindade e os bordados (a cirurgia de reconstituição do hímen) também vêm à tona: é que, apesar do desejo que sentem depois de uniões que deram errado, algumas mulheres ainda pensam em se preservar virgens para agradar ao próximo marido. Mas Bordados é uma história de protagonismo feminino, de uma roda de mulheres juntas como um lugar de acolhimento e transformação, tão seguro e confortável como andar de mãos dadas.

 

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Bordados
Marjane Satrapi
editora Companhia das Letras
136  páginas
R$ 34

 

 

 

 

E a Bahia só tem uma

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por Mariana Paiva

Vou te contar: de saudade não se morre. Mas é que a visão vai ficando turva de tanto asfalto, de tanto dia que se arrasta até que enfim se poste diante dos olhos meu mar. É uma faixa de água que se estende de um canto a outro da costa, tem a baía, olhe, de geografia eu não entendo muito não. De Bahia, sim.

Bahia é aquela saudade que fez Arthur dizer, no meio da corrida de Uber em São Paulo, que todo lugar é bom, mas que a Bahia é diferente. Que lá é melhor. E olhar dele passeou sonhou viajou um pouquinho pro vilarejo pequenininho onde nasceu, onde vai, se Deus quiser, no fim do ano. Matar saudade. Quem tá longe da Bahia só fala nisso.

Ou então Bahia é aquela alegria infantil no olhar de Lázaro em andar pela calçada perto do mar . Passar um grupo de pessoas dizendo que mais tarde vai vê-lo. “Que horas?”, Lázaro quer saber. “Sei não, depois da praia”, a resposta vem. Depois da praia. Porque  na Bahia se sabe que antes da praia não tem nada: que se a Bahia é, é depois de entrar no mar, de pedir benção à sereia. E  um olhar brincalhão querendo correr sobre  a rampa do Teatro Castro Alves.  Na Bahia também fico menina, Lázaro, eu entendo.

E Vânia, do outro lado do balcão de café no supermercado. O riso solto tirando o café da máquina, riso solto servindo, riso solto lembrando meu nome quando chego pela segunda vez. E vem a pergunta sorridente: “Você é da Bahia?”. Eu sou. “Então é duas”, ela anuncia, morrendo de rir, já com a mão no ar pra eu bater a minha. Bahia também é a mão amiga de Vânia na minha ali por instantes, receita pra chegar em casa mesmo mais de dois mil quilômetros além. O resto é domingo. E espera.

 

  • a foto é minha mesmo, de meu Portinho da Barra ❤
  • o título é um pedaço da canção Beira-Mar, de Gilberto Gil

 

o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente

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por Mariana Paiva

*

Cresci com meu pai cantarolando Belchior pela casa. Era a vida ficar um pouquinho dura e ele já me repetia os versos  “A minha alucinação é suportar o dia a dia”. Gostar eu não gostava não. Era uma raridade eu não querer uma música trazida por meu pai, mas aquelas de Belchior eu não queria. Porque ele cantava rápido. Embolava as palavras. E eu queria tudo dito devagar. Pra que a pressa? Eu achava que tinha todo o tempo do mundo.

Boba. Bastou a vida me chamar com seus dias que passam rápido demais que fui me aconchegar em Belchior. Não faz muito tempo não, aliás: foi bem quando ele caiu no mundo sem destino que me vi precisando dele. Era uma rebeldia de cantar como desse vontade, correr contra o desejo da música de ir com calma. Sim, porque a vida não vai devagarzinho. É deitar pra dormir e acordar e tá tudo diferente. Já. É sempre já. E eu descobri.

Precisei de uma música pra (me) abraçar.  No horizonte estava um Belchior sumido no mundo e que de repente passou a fazer todo sentido pra mim. Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção. Aquele coração selvagem dentro do meu peito enfim musicado, transformado em verso do início ao fim. Um repeat infinito pra vida inteira, vontade de gravar na pele pra nunca esquecer. Cante rápido mesmo, Bel. Embole as palavras e tenha pressa porque você tá certo: o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente, tome um refrigerante, coma um cachorro-quente. Onde quer que você esteja nesse mundão de meu Deus, celebre esse som, essa fúria, essa pressa de viver. Na contramão que anda todo mundo que sente, é bem mais alegre com sua voz pra cantar meu hino pra mim

 

Feliz 70, my dear