Quarenta dias

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Por Mariana Paiva

Alice, também sou brasileirinha. Cá comigo eu queria escrever de outro jeito, falar pomposo do livro que conta sua história, mas não. Somos irmãs e é assim que tenho que dizer de você. Também me vi perdida sem saber voltar pra casa: já faz quase um ano que a bateria do celular acabou e as ruas me pareceram todas iguais. As mesmas casas, os mesmos muros de hera, as mesmas ruas divididas em quadras. Parei numa porta aberta qualquer e um tal de seu Roberto me disse: “Sua casa é na terceira rua à direita, é só seguir e virar que chega lá”. Minha casa ensinada pelos outros. A primeira vez.

Sou de longe daqui também. Nem sempre chego onde quero. Por vezes os caminhos me enganam e tenho de me contentar com um destino que surge e não escolhi.Também rezei para que houvesse algum Cícero Araújo que, perdido da mãe, virasse assunto e me distraísse de mim. O tempo foi passando e me vi ficando forte, ficando grande. Quando o céu fica muito cinza, confesso que ainda vacilo: fico sonhando com meu verão de antes e longe daqui. Meu verão de quase um ano inteiro, uma vida inteira, todo dia de veraneio na ilha de Itaparica. A areia branca das dunas, o pé descalço, a cara no sereno até tarde.

Isso você entende, né, Alice? Todo mundo ao redor sabia bem da Professora Póli e de mim também. Chegando aqui, pude ser qualquer pessoa, que nem você, aí pras bandas do sul. Seus quarenta dias para mim foram 365 e o relógio ainda contando. Queria um canto que coubesse essa risada escancarada de quem conhece palavras secretas como campado, mulambento e barril. De quem sabe que se o problema é muito e não cabe numa palavra só, é barril dobrado. Um lugar onde o ouvido seja amigo de minha fala cantada, eu mesma ondinha do mar do Rio Vermelho que veio quebrar no concreto.

Só essa saudade que é grande demais para sete letras e talvez para todas as milhares que compõem sua própria história, Alice. Também me procuro nas ruas com nomes desconhecidos, exploro esse novo lugar com olhos cansados e curiosos. Eu que ainda não entendo o kitsch do cuscuz paulista e que enfrento a saudade com mariscada e dendê. Com sorte, entre esses dias e noites que se sucedem, quem sabe uma hora a gente se  encontre em casa, Alice

 

Quarenta dias
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
248 páginas
R$ 39,90

 

 

Carta a P.

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por Mariana Paiva

*

P,

A força eu descobri do jeito inverso: na sessão da tarde, os heróis já são fortes e por isso se aventuram. Me aventurei pra descobrir a força ancestral guardada nas entranhas, não é louco isso?  Mas vou guardar a descoberta como um segredo bom de saber, exceto pra você. Você não é todo mundo: tem essa alegria que explode de repente e mancha tudo de risada boa (mesmo que a piada seja ruim).

Aliás era disso mesmo que eu queria falar: a alegria desordenada de quem gosta de viver. Aqui faz frio, e cá entre nós, acho mesmo que o mar faz uma falta danada. Não só pra mim.  Tenho feito pesquisas empíricas e cada vez mais percebo que a brisa do mar todo dia tem efeitos muito positivos para o cérebro. Ajuda a mover os móveis da casa para ver tudo diferente, ajuda a passear nas feiras, conversar com as pessoas, comprar flores para enfeitar tudo. O enfeite – aqui em minha teorização absolutamente minha – está diretamente ligado às propriedades da brisa do mar. Inclusive ajuda a não olhar o relógio (ou “destemperar o tempo”, como você me disse já).

Faz frio mas é só um pouquinho porque não tem alma acostumada à alegria que escolha tão longamente o inverno. Tô ouvindo música nova, comendo o que não comia antes, aproveitando as novidades. Continuo sem raiz fincada.  Only this darkness before você sabe. Talvez um certo inferno astral. Palavra pra que? Coração sabe quando. Talvez um hora dessas eu apareça por aí, olhos sorrindo outra vez, vestido solto, pernas de fora, como se nunca tivesse deixado de ser verão, um beijo

(just pretty lies)

  • o desenho que te mando é de Manara. ele é que sabe das coisas

 

A mulher e a cozinha da história

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Por Mariana Paiva

Houve um tempo em que as mulheres posavam para fotos oficiais como protagonistas. Houve um tempo, sim, e não faz muito. E então um novo governo com o passado eternizado na fotografia: ternos bem cortados (possivelmente italianos), gel nos cabelos, cara de sucesso. Um governo feito somente de homens. “Mas o critério tem que ser mérito, não gênero”, dirão os incautos. Sim,  e é por essa mesma razão que precisamos das mulheres nos ministérios.

Mas que não seja um ministério de princesas. De moças de fala mansa e salto 15, mais preocupadas em ajeitar a gravata do par do que com seu próprio discurso. Que não sejam Belas, Auroras ou Brancas de Neve como tantas menininhas em suas fantasias. Que sejam Carolinas de Jesus, Fridas, Clarices, Hildas. Mulheres capazes de escrever suas próprias histórias, escolhendo o caminho de acordo com o critério mais importante do mundo: a vontade.

Basta abrir a porta e constatar: elas já estão espalhadas por aí. Nas chefias das empresas, nos cargos principais das redações, nas universidades, nas ruas. Tanto caminhar apesar do mundo cor de rosa que tentam lhes atribuir como único possível. As mulheres resistem. De salto ou de rasteira, com filho ou sem, sangrando todo mês e sobrevivendo assim mesmo. Dando plantão, acordando cedo, pulando a hora do almoço. É que ser mulher tem disso: é preciso uma força a mais para abrir espaço num país que às vezes prefere ser uma foto só de homens.

Ser mulher e viver no Brasil é sobreviver. É deixar a delicadeza de lado para enfrentar as ruas cheias de cantadas e viradas de rosto, os assediadores nos ônibus, os salários menores no trabalho. É ser perguntada sobre maternidade nas entrevistas de emprego e ser preterida se a resposta for sim. É passar a vida inteira resistindo, exigindo respeito, falando com firmeza. Ser mulher no Brasil – olhando bem aquela foto nova do presidente e de seus ministros – dá um desgosto tão grande que talvez fosse melhor nem ser. À revelia desse rancor que a empurra de novo para a cozinha da história, a mulher resiste. O nome de sua força ancestral: coragem.

 

  • a pintura é de Frida Kahlo

Queda livre

elgaucho

por Mariana Paiva

Ir por onde nunca fui. Os pés descalços. Quero saber como é o mundo. O que é que tem depois dali? Vamos. Você não tem medo? Claro que tenho. A perna treme sozinha, o coração dispara mas eu vou. Eu vou porque sou eu que escolho. Em frente.

Alguém devia avisar: liberdade vicia. Vento na cara, novidade, velocidade. E o depois do limite. Agora posso mais. Fiquei poderosa, dona do mundo, sabe até onde eu posso ir? Nem eu. E a graça ser exatamente essa: ser grande, ilimitada. Nada de “conhece-te a ti mesmo”. Antes disso, desconhece-te. Esquece de onde você achava que começava e terminava. Reinventa tudo. Sem começo, sem meio, sem fim. Livre assim.

Me desenha como um passarinho. Sim, voando. Mas se é assim mesmo que eu sonho? Eu sei voar. Tem dia que a asa acorda tímida, mas lá de dentro, um pedacinho quente me lembra que sei. E então um caminho novo que faz o olho brilhar. Vai ou não vai? Vou sim. Quem chama é natureza de bicho selvagem, criado solto. Fera risonha que gosta de carinho.

Faz muito tempo a grande verdade que Ivan disse. Uma leoa correndo de cabelo solto e o vento, o vento. Uns poemas no meio do caminho. O vento. A leoa correndo sem parar. Pra que parar, afinal? Bom é ir. Coração bem sabe, esquece não.

 

 

* para Ivan Cerqueira, por uma lembrança tão boa

** para Iracema e Dora, que voam junto

*** a ilustra linda é de “El Gaucho”, de Milo Manara❤

**** trilha sonora: “Queda livre” – Cascadura

A dor da gente não sai no jornal?

tango-3por Mariana Paiva

De vez em quando, uma manchete de jornal é problema de todos nós. Chega mais perto que cobrança de CPMF, troca de governo, protestos nas ruas. Por essa manchete, nenhuma panela bate. Também pudera: incomoda demais. Dói em todo mundo, porque é problema de todo mundo. Ninguém queria falar sobre a menina, mas é que ela está tão aí que não dá mais pra não olhar.

É o dia em que a manchete enfim chega perto da gente. Está nas viradas de rosto ao andar na rua, na hora de escolher uma roupa em que se passe quase despercebida, ou em apertar o passo se um homem se aproxima. Pode ser um cara bacana, alguém que está só passando. Ninguém sabe. Tá no bom dia que você deixa de dar ao taxista porque ele toma sua boa educação por flerte. E aí surgem, inevitavelmente, as perguntas: “Você mora aqui?”. “É casada?”.

Uma conhecida que transava dia sim, dia não, porque o marido queria (ela não). Outra que tinha filhas e cuidava delas praticamente sozinha: as meninas sendo órfãs de pai que vivia na mesma casa, daqueles que “até” trocava fralda e dava banho uma vez ou outra. A moça que preparou com esmero todos os detalhes do casamento mas esqueceu de combinar que as tarefas domésticas seriam divididas igualzinho entre os dois. A sogra que diz que “ele só fica nervoso porque você não para de falar”. Ou então os milhões, bilhões de relacionamentos abusivos em que as mulheres têm medo de gritos e outras agressões de seus companheiros.

São histórias comuns. Não deviam, mas são. Experimente perguntar a qualquer mulher que você conhece. Também é compreensível se você não quiser: pode se surpreender negativamente. Pode ouvir histórias que machucaram pessoas que você ama tanto. São todas histórias de violência, eu te digo. Em maior ou menor grau, nem que seja fazendo piada, somos responsáveis pela triste manchete do jornal. E precisamos não ser mais.

É que não precisamos falar das mulheres: precisamos é falar dos homens. Dos meninos que crescem mostrando o pintinho nos domingos em família, vestidos de azul e fantasiados de rei nas festas de aniversário. Dos adolescentes e do consumo da indústria pornô que trata tão mal as mulheres. Dos homens adultos que seguem casando para ganhar diarista, filhos e babá. Ou então que se transformam em tios cheios de tesão pelas ‘novinhas’. Homens que se vangloriam das pegações do fim de semana numa mesa cheia de outros homens. Para proteger as mulheres, precisamos falar dos homens. Tudo bem. Mas são homens que amamos  (amigos, primos, tios, pais, namorados, maridos, vizinhos), e é por isso que a manchete dói tanto. A dor da gente às vezes sai sim no jornal.

 

  • a cena é de “Último tango em Paris”, com Marlon Brando e Maria Schneider. Os bastidores do filme também têm uma história bem complicada de violência. Dá um Google aí pra ver

amor de salvação e estrada aberta

por Mariana Paiva

 

O amor como uma dançarina pequena que baila nua à beira do rio. Como algo possível e belo aos olhos mas impossível de ser tocado. Exatamente porque é pequeno, nu, distante. Assim é em A dançarina de Izu, livro de Yasunari Kawabata.

Numa espécie de road movie japonês, um jovem estudante viaja de olhos e ouvidos atentos a tudo que cruza seu caminho até encontrar uma trupe de artistas. É no encontro com o outro que o solitário protagonista enfim passa a existir ainda mais: nas expectativas – algumas vezes frustradas -, no desejo, na amizade, na possibilidade do amor. E não é assim mesmo, afinal?

E então o amor que não chega a se realizar, como num verso de T.S. Eliot citado numa crônica de Rubem Alves: “Livra-me da dor da paixão não satisfeita, e da dor muito maior da paixão satisfeita”. Para o jovem estudante que pela primeira vez se permite sentir, talvez a paixão satisfeita seja demais. Talvez ele suporte apenas a pouca bagagem que carrega, além do entendimento de que é preciso continuar a viagem. Ainda assim, ele já não é mais o mesmo porque sabe que é possível.

O amor como uma chance de escapar à solidão e à indiferença, como uma tábua de salvação: é essa a bandeira que Kawabata defende com delicadeza em A dançarina de Izu. O jovem segue sendo outro: não se furta às lágrimas em público se assim sentir. Não caminha mais sozinho. A despeito da solidão que ainda aparenta, ele segue novo e vivo pela estrada aberta*

 

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A dançarina de Izu, de Yasunari Kawabata
editora Estação Liberdade
tradução de Carlos Hiroshi Usirono
101 páginas

 

* o final do texto referencia Canto da estrada aberta, de Walt Whitman, um dos poemas mais bonitos que tem

** a edição da Estação Liberdade conta ainda com um ótimo artigo, O século de Kawabata, de Meiko Shimon, que fala mais sobre a vida e a obra do autor do livro e analisa seus temas mais frequentes

Bartleby ou o grande cansaço

por Mariana Paiva

 

Uma televisão em stand-by. Um imenso maquinário de fábrica no domingo à tarde. As folhas das árvores num dia de muito calor. Há uma vida que espera todas as coisas, um lampejo de luz que fará tudo se movimentar novamente. E existe Bartleby, o Escrevente, de Herman Melville: a ausência completa de vontade e de movimento. Uma existência que se arrasta pelos cantos, em silêncio, na esquina da vida dos outros.

Todo dia é tudo igual no escritório de um advogado famoso de Wall Street. Todas as tardes seu funcionário mais velho se irrita e borra os documentos. O outro empregado pragueja contra a mesa que usa, já que nunca consegue mesmo achar uma posição confortável para fazer seu trabalho. Muito movimento que engana os incautos: também nesse mover há inércia. Nada além do esperado acontece. É o mesmo que não acontecer nada.

O que move os personagens é exatamente a chegada de Bartleby, o novo empregado da firma. Convocado a conferir os documentos que copiou, ele se limita a responder ao chefe: “Preferiria não”. Sem maiores justificativas, ele vai aos poucos se afastando do trabalho até chegar ao ponto de permanecer no escritório olhando pela janela. Bartleby não come nada além de biscoitos de gengibre e guarda todo seu salário no fundo de uma gaveta. Gasta menos de cinco centavos por dia e assim suas economias vão crescendo.

Em pouco tempo, já estão todos irritados com sua inércia. Mas o vocabulário dos demais funcionários da firma cresceu: todos agora utilizam a palavra “preferir”. Alguma coisa está se modificando finalmente. Só Bartleby que permanece o mesmo, escondido e silencioso atrás de um biombo. A vida é uma sucessão de dias e Bartleby não resiste e nem briga com isso.

Em vez de consolar o coração curioso do leitor, Melville deixa pra quem lê entender o recado à sua maneira. Talvez Bartleby seja representante de um grande cansaço que acomete a todos uma hora ou outra. Quem sabe uma inércia capaz de movimentar tudo ao seu redor, de tirar todas as coisas do lugar, de mudar todo o rumo da história…Quem sabe?

 

bartleby

Bartleby, o Escrevente, de Herman Melville
editora Grua
88 páginas
tradução de Bruno Gambarotto