La la la la la la la

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  • por Mariana Paiva

Eu sabia que você ia rir. Que a voz ia sumir enquanto ria, ria, ria. É muito solto mesmo. Eu sabia. E é desses saberes ancestrais: na hora de mentir a gente ri também. Ri da mentira e ri da verdade. Podia ser sério mas é risonho, foi tudo outro dia mas já faz muito tempo. Uma encarnação inteira errando letra de música (assim fica fácil escrever).

Fala um verso e ri. Mais outro. Ri também. A boca ri porque vai sempre escolher rir a chorar. Eu não disse? Eu sabia que você ia rir, boca. Eu sabia que você ia fechar todinho pra rir junto, olho. Sabia de saber ancestral.

2018 tem copa do mundo. A sala ainda estará lá, no mesmo lugar? E aquele medo de elevador? Tá tudo estável? Mais ou menos. A resposta é sempre mais ou menos e riso, riso, riso. Quem sabe um dia esteja tão estável que desmorone. E aqueles versos “la la la la la la la la”? Esses não dá pra esquecer. São simples mas sem erro. Devem ser assim mesmo as coisas de certeza da vida: definitivas. Até bobas de tão óbvias. Tanto que a gente até duvida delas.

No mais, tô lendo Derrida pra desconstruir

 

  • a imagem é de Nan Lawson
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As palavras

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  • por Mariana Paiva

Existem as palavras, e delas não dá pra ter medo. Cada uma é uma coisa (ou várias), e o bom é isso mesmo. Pudim, por exemplo, só lembra o de minha vó. Há aqueles no potinho, os branquelos, os molengos que mais parecem um flan. Não lembro deles sem algum esforço. Rápido quando ouço “pudim” eu lembro mesmo o de minha vó Iá: douradinho e aerado graças a um segredo na receita que não conto aqui.

E tem domingo. Domingo é outra palavra que não me deixa dúvidas. Tem que ter sol, tem que ser perto do mar e sem hora pra chegar nem ir embora. De segunda-feira também já gostei, eu e a palavra que assusta tanta gente já fomos amigas por nossos próprios motivos. Só sei dizer que era feliz.

O resto eu deixo fluir. Escrevo para não perder o costume das palavras. “Muito”, por exemplo, é uma que a gente estranha se passa algum tempo longe. Fala anasalado, como se houvesse um “n” depois do “i”. Não tem. Mas a gente fala assim mesmo, assim que é bom, é mais bonito talvez.

Para o que sinto, busco nome à toa por aí, mesmo com alguma preguiça de carregar dicionários tão pesados. Criamos tantas palavras que desconhecemos quase todas. As essenciais ainda sigo procurando. Talvez um dia eu invente.

O sal da terra

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por Mariana Paiva

Não importa que já tenham passado mais de dois anos desde o lançamento de “O Sal da Terra”, documentário de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado sobre a obra do fotógrafo Sebastião Salgado.  Qualquer hora é boa pra ver um filme desse quilate: mais que expor imagens como um Power Point de fotografias ou deixar Sebastião Salgado narrando por horas, o documentário se debruça sobre o ser humano. É esse seu maior mérito.

E é assim mesmo que está avisado desde o início do filme: o sal da terra é o ser humano. A gente toda desse mundo, as pessoas que caminham indo e vindo. O título é uma referência a um trecho bíblico de Mateus: “Vóis sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor?”. Ser o sal de uma terra inteira tem suas responsabilidades, em frente ou por trás da lente da câmera. Sebastião sabe. Por isso deixa de fotografar o urso branco, mesmo muito de perto, porque faltam elementos na paisagem. A cabeça entre as mãos, o fotógrafo abaixa a câmera. Agora não. Ou também porque o que se apresenta em frente à lente dói demais. Lágrima em lugar de clique. Porque para ter sal precisa também ser na hora certa.

E uma lembrança de que saudade também serve de matéria-prima pra arte: Sebastião viaja a América Latina inteira para chegar mais perto do Brasil, de onde saiu por conta da ditadura militar.  Entre os destinos que percorre, a dor de testemunhar a dor do outro machuca o fotógrafo. “Minha alma ficou doente”, Sebastião diz. Correr pra buscar consolo em outras paragens, na natureza praticamente intocada de Genesis.  Os animais se achegando, baleias e barcos pequenos convivendo em harmonia. Uma ternura possível. E então a floresta replantada no próprio peito do fotógrafo, os olhos de novo prontos pro que vier…

do lado esquerdo do peito

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por Mariana Paiva

Ainda bem que ninguém dá presente hoje. É dia do amigo e a amizade come mesmo é coisa cotidiana: uma cartinha cheia de sementes de agrião, um telefone que toca quase meia noite quando precisam de você, um ouvido, um abraço. Um dia em que você não tá bem e alguém lhe aparece com umas sementes de pimenta fálica pra você plantar e dar risada. É contar o presente de aniversário antes da hora porque a amiga sabe que você vai ficar feliz antecipadamente em saber que é uma cabeça de unicórnio. É uma taça de vinho, uma palavra, uma carta que viaja por continentes até chegar aqui. É um sonho de semente de coentro e um amor tão grande, tão maior. É tanta coisa que não dá pra contar. Um  encontro que dispensa palavras e deixa tudo em suspenso: a amizade.

Há os dias bons e os dias nem tão bons assim. Esses últimos são matéria de tempo, é só ele é quem pode com certas questões. Mas um dia, então outro dia, e quem sabe um reencontro. Amizade também é pra dizer isso: há pontos finais que merecem seguimento. O coração é que sabe quando sim e quando não.

Para as saudades, uma música de Milton sempre presente. É coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito. O mundo tão complicado e esse amor de amigo pronto a acolher, aconchegar, fazer verão. Nesse assunto ninguém precisa dar nome aos bois: quem é sabe (como diz o povo das indiretas). As mãos dadas na vida não deixam negar.

 E um dia pra comemorar sendo pequeno demais para caber a espera, o riso solto, os encontros de quem sabe que, se há um destino bom nessa vida, é o de viver junto. Ninguém é uma ilha. Mas se por acaso eu for uma, que seja uma Itaparica cheia de meus melhores amigos, tomando água de coco e falando bobagens, me fantasiando de festa todo dia, que essa vida não é pra menos. Ser feliz deve ser alguma coisa como isso: boa companhia, o mar indo e vindo e a vida acontecendo – seja lá como for.

* a pintura é “Breakfast in the Open”, de Carl Larsson

amanhece.

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por Mariana Paiva

Eu queria ser capaz de escolher uma coisa só, mas nem vou tentar. É que alegria quando vem de pacote o ideal é abrir e pegar tudo de vez, sair atacando tudo que nem caixa de Bis. Alegria é quando você olha ao redor e acha tudo especial demais de repente: faça chuva ou faça sol pela janela, dentro brilha.

E por isso mesmo agradecer. Aquele brinde de pinot noir na viagem, as papilas gustativas felizes ao encontrar a uva preferida. Uma noite difícil e a vontade quieta pulando no peito de mostrar o sol nascendo tão bonito na estrada às pessoas. Olhe,às vezes a vida é triste, mas tem essa revolução que acontece todo dia à revelia de toda tristeza. Amanhece. E é porque amanhece que tem que matar a saudade da cama da gente, do pijama, de se enfiar embaixo dos lençóis e dormir até mais tarde.

Assistir a  um concerto de crianças violinistas. Entre um intervalo e outro, a alegria saltitando em seus olhos, as roupas arrumadas e os pés de moleque correndo pra lá e pra cá com seus violinos sem medo de chão. Não se avexe não, não tem solenidade certa quando a hora é de alegria. Ou a amiga que senta no chão pra pintar suas unhas da mão direita pra você, logo você, que borra tudo que faz com a mão esquerda. Sim, a alegria, ela de novo. A alegria de ter uma amiga que faz as vezes de sua mão esquerda. Tão bom.

Contra todas as previsões nostradâmicas, contra todas as manchetes de jornal, contra todos os berros, contra todas as violências, só mesmo ela. A alegria, esse negócio universal de tão grande

(amanhã amanhece de novo)
* a imagem linda é de Catrin Welztein

Volto semana que vem

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  • por Mariana Paiva
Muito além das tão conhecidas narrativas de ditadura militar, em que abundam os relatos de prisões arbitrárias e torturas, há as pessoas. E é esse o universo que Maria Pilla descortina em seu livro “Volto semana que vem”. Como numa espécie de diário escrito em primeira pessoa, Maria passeia pelos anos de sua história: a presa política já foi criança, já caminhou por capinzal de guarda pó branco com os colegas para chegar à escola.

Se há um grande mérito neste que é um grande livro sobre a ditadura militar é exatamente sua diferença dos demais: ele é humano, demasiadamente humano. Porque “Volto semana que vem” mostra a trajetória da militante política Maria Pilla sem resumi-la a isso (embora isso seja grande parte de sua história). Apresenta a menina que gostava de voltar para casa de lotação com o pai, a moça cujo coração quase sai pela boca depois de um convite para o cinema (o filme era Easy Rider). Que passeia pela rua Augusta, que vê os conhecidos serem levados e desaparecerem nos porões da ditadura, que se alegra ao sentir o cheiro do manjericão na comida da prisão de Olmos, na Argentina.

Um livro fragmentado, exatamente como quem passa pelas agruras da vida sem esquecer do gosto bom de rabanada. Que ainda se lembra de uma promessa feita a queima-roupa ao pai, avisando que voltaria na semana que vem, e que só se sabe cumprida muitos, muitos anos depois. E que, à revelia das violências e das privações todas de liberdade, ainda lembra de como era não sentir medo:

Agora a escola ficava longe de casa. Tomava-se o bonde até o fim da linha e depois seguia-se a pé pelo capinzal dos terrenos baldios. Todos viam aquela revoada de crianças com seus guarda-pós brancos. O medo dos outros ainda não tinha sido inventado.

“Volto semana que vem”, de Maria Pilla, é, antes de tudo, uma obra de resistência, uma recusa a se envergar diante do peso da vida. Ou quem sabe um ponto de seguimento na história, sensível e necessário.

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Volto semana que vem
Maria Pilla
Cosac Naify, 96 páginas

Muito além do jardim

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por Mariana Paiva

Sou menina amarela de apartamento. Ou melhor, era. Fui até cerca de 60 dias atrás, quando me mudei para uma casa. No quintal dela, um jardim tomado por mato de todo jeito, restos de entulho, telhas soltas. Comecei então a ver coisas que nunca tinha visto. Meus olhos se abriram nas prateleiras dos mercados para luvas de jardinagem, enxadinhas, pás, mangueiras. Mudinhas de plantas. Estava ao meu alcance transformar aquela bagunça no que eu quisesse. Descobri rápido.

Aprendi a gostar daquele tom marrom típico de terra. Parei de ter nojo de minhoca quando peguei uma na mão, cheia de uma coragem que nem sabia que tinha. Capinei, tirei o lixo, fui jogando pro canto tudo o que eu não queria mais pro jardim. Mesmo achando um ou outro matinho mais bonitinho, aprendi a arrancar. Mato não pode ficar no lugar da planta que você quer. Aí uma lição que vou levar pra vida, e vale pra tudo: gente, trabalho, amor, amizade.

E então a lição maior: a paciência. Esperar um dia e outro e mais outro até ver que o hortelã quis ficar. Que o pé de manjericão agora balança frondoso e gordinho com o vento que passa. Jardim pede água, carinho, tempo. Pede espera. Pede um olhar de manhã cedinho pra ver se todo mundo tá feliz na terra nova. É se derreter ao ver mais uma pimenta vermelhinha pendendo do pé. Uma tímida pitanga anunciando uma multidão futura delas. As rosas colorindo tudo. Primavera pode ser sempre, coração sabe. Jardim é um jeito bom de aprender amor.