pra dizer adeus

bispo_015_cotada

 

por Mariana Paiva

Só sei amar com palavras, então essas. Que só agora saem porque perder, às vezes, só se entende mesmo com o silêncio. Naquela noite em que soube de você, meu amigo, eu fiquei sem voz. Lembrei da legenda que minha avó sempre fazia quando, ao passar as folhas do álbum de fotografias, se deparava com o olhar vermelho de choro de meu tio. O cabelo despenteado, a cama de solteiro, uma tristeza que nunca vi ao vivo. Minha vó dizia: “Nesse dia o melhor amigo dele morreu”. Agnelo.

Mas eu nunca tinha perdido um amigo até aquela quarta-feira. Enquanto chorava eu lembrava daquela foto sobre a qual nunca tinha falado a ninguém. Daquela foto que minha avó nunca deixou passar em branco no álbum. Porque ela, sem saber – ou talvez sabendo, porque sabe das coisas -, tinha me ensinado. A dor é parte da vida, e não precisa ser escondida nem se envergonhar. Eu menina aprendi ali. Mais de vinte anos depois, lembrei daquela foto do álbum. Agnelo me ensinava ali a perder Noel. As letras embaralhadas de um contendo o nome do outro. A foto antiga da saudade me ensinando a viver a vida naquela hora.

E a lembrança dos sambas de João Nogueira num domingo em que fez sol, a vitrola na sala de casa, a comida de Soninha cheirando lá da rua. Ou o pão que ele sempre cortava na metade para comer, e eu comia a outra parte, porque também gostava assim. As tardes que viravam noites ao redor da mesa da cozinha onde cabia de tudo, de política a literatura, de gente a planos de viagens infinitas. Do abraço que eu guardo no coração, porque quando cheguei aqui era tudo deserto e sua casa e sua família me acolheram. O relógio da sala, as eubioses cabeludas de viver. Bispo do Rosário na parede da sala ensinando como fazer um muro no fundo da casa. Abajur alto iluminando as páginas ideias dias.

Tudo o que penso quando penso em você é na alegria de se espalhar por aí, de conhecer, de gostar de gente, de querer ouvir falar e ler infinitos. Saber as ruas de São Paulo todas pelo nome, flanar tranquilo, escolher um boteco para conversar com pessoas. Da última vez eu guardo aquele bar de portas cerradas com nós todos lá dentro, Toninho servindo saideiras infinitas. Tarde virando noite noite virando mais tarde. A vida é de viver muito, você me disse tantas vezes sem sequer uma palavra. Por isso um dia ainda te escrevo um poema, meu amigo

 

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