Category Archives: Livros

natureza humana

andrelouco

por Mariana Paiva

Coisas incríveis acontecem quando a gente deixa o acaso trabalhar. Livro, por exemplo. Tava querendo ler alguma coisa que eu não fizesse ideia de como seria. Nenhuma informação anterior (ou praticamente nenhuma), nenhuma nota de jornal falando sobre. Foi assim que andei por várias prateleiras da biblioteca até encontrar o que procurava: “André Louco” (1978), de Bernardo Élis.

O que eu sabia dele: que era goiano e objeto de pesquisa de Nina, minha amiga. Era isso. A primeira sorte que eu dei foi ter, logo no início do livro, uma ficha autobiográfica dele, que me contou um monte de coisas. Soube que, por conta de uma birra entre seu pai e o mestre-escola da cidade, Bernardo teve que estudar em casa. E que, sendo ele aniversariante do dia 15 de novembro, seu pai lhe dizia que eram em sua honra os foguetes estourados e a bandeira nacional hasteada por toda parte em Corumbá.

E então o livro: “André Louco” reúne cinco contos, incluindo o que empresta o nome ao livro. É nele, aliás, que está o que o livro tem de melhor: aterrorizados com André, um louco que sai a matar quem encontra pelo caminho, os habitantes da cidade se reúnem para agir contra ele.  São os gritos de André a única coisa que foge ao controle da aristocracia local, reunida em salas de visita para conversar amenidades e se gabar de feitos.

precisamos do Louco, seu João. Precisamos muito dele. Sem o Louco ninguém aguenta a insipidez da cidade.

O dia em que os gritos do louco enfim não são ouvidos, entretanto, é um tédio.

E o resto do dia o gramofone alegrou funebremente a cidade, mais deserta, mais muda, onde pairava um vácuo enfadonho, com vozes longes de gente conversando, menino chorando

Entre exorcismos e outras soluções religiosas oferecidas para livrar a cidade de André Louco, o silêncio é conquistado às custas de muitos gritos. Para parar a violência, mais violência. Paradoxal e perfeito como a (des)humanidade, ainda mais nesses tempos.

No último conto do livro, “A lavadeira chamava-se pedra”, mais uma grata surpresa. A lavadeira queria dar uma gaita de presente a seu menino, mas não podia, não tinha dinheiro. E exatamente o ladrão da cidade, o conhecido e antigo gatuno das ruas do local, é quem oferece a prenda. Um coração bom no peito de quem está acostumado a subtrair objetos dos outros, como é que pode?

Nas páginas do livro, Bernardo Élis espalha um tema interessante: o ser humano cheio de paradoxos. Do outro lado, quem lê chega a ter pena de André Louco. Torcer para que a vez de Paratudo chegue. Talvez até chore junto com a lavadeira no fim do conto. Vai entender essa natureza humana tão humana que Bernardo Élis insiste em mostrar…

 

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André Louco
autor: Bernardo Élis
editora: José Olympio
102 páginas
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Volto semana que vem

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  • por Mariana Paiva
Muito além das tão conhecidas narrativas de ditadura militar, em que abundam os relatos de prisões arbitrárias e torturas, há as pessoas. E é esse o universo que Maria Pilla descortina em seu livro “Volto semana que vem”. Como numa espécie de diário escrito em primeira pessoa, Maria passeia pelos anos de sua história: a presa política já foi criança, já caminhou por capinzal de guarda pó branco com os colegas para chegar à escola.

Se há um grande mérito neste que é um grande livro sobre a ditadura militar é exatamente sua diferença dos demais: ele é humano, demasiadamente humano. Porque “Volto semana que vem” mostra a trajetória da militante política Maria Pilla sem resumi-la a isso (embora isso seja grande parte de sua história). Apresenta a menina que gostava de voltar para casa de lotação com o pai, a moça cujo coração quase sai pela boca depois de um convite para o cinema (o filme era Easy Rider). Que passeia pela rua Augusta, que vê os conhecidos serem levados e desaparecerem nos porões da ditadura, que se alegra ao sentir o cheiro do manjericão na comida da prisão de Olmos, na Argentina.

Um livro fragmentado, exatamente como quem passa pelas agruras da vida sem esquecer do gosto bom de rabanada. Que ainda se lembra de uma promessa feita a queima-roupa ao pai, avisando que voltaria na semana que vem, e que só se sabe cumprida muitos, muitos anos depois. E que, à revelia das violências e das privações todas de liberdade, ainda lembra de como era não sentir medo:

Agora a escola ficava longe de casa. Tomava-se o bonde até o fim da linha e depois seguia-se a pé pelo capinzal dos terrenos baldios. Todos viam aquela revoada de crianças com seus guarda-pós brancos. O medo dos outros ainda não tinha sido inventado.

“Volto semana que vem”, de Maria Pilla, é, antes de tudo, uma obra de resistência, uma recusa a se envergar diante do peso da vida. Ou quem sabe um ponto de seguimento na história, sensível e necessário.

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Volto semana que vem
Maria Pilla
Cosac Naify, 96 páginas

vamos de mãos dadas

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  • por Mariana Paiva

Desde que a gente é pequeno é assim: um pulo que parece um abismo muito grande, um sabor diferente, tomar injeção, atravessar a rua. Tudo (absolutamente tudo) fica mais fácil de mãos dadas. É um jeito bom de vencer o medo, inaugurar o mundo, de saber que com companhia a vida fica melhor. Disso quem é pequeno sabe demais. Mas o tempo passa, a gente estica e fica achando que virou super, que não precisa mais do outro. Bobagem: precisa sim.

Foi pensando nisso que terminei de ler Bordados, história em quadrinhos de Marjane Satrapi (a mesma de Persépolis, aquela lindeza). No poder que cada história tem, e que ela se torna frutífera mesmo quando é compartilhada. “Ah, mas aquele videozinho do Segredo diz pra gente ser feliz sozinho, pra fazer boca de siri quando o assunto for a própria vida”.  Fica a dica: “feliz” e “sozinho” na mesma frase só funcionam bem um em oposição ao outro.

Dessa alegria em compartilhar sabem também as personagens de Bordados. Reunidas em torno do chá servido no samovar, as mulheres iranianas que fazem parte da família de Marjane revisitam suas próprias histórias e por muitas vezes terminam rindo de dramas vividos. É revolucionário e sutil: a mulher, historicamente isolada nas quatro paredes das casas entre cuidados com seus maridos e filhos, se une a outras para que a vida fique mais leve. E feliz, essa que é a melhor palavra.

Contadas para o grupo de mulheres, as histórias de traições, casamentos forçados e outras dores são transformadas em matéria-prima para que a conversa se estenda mais um pouquinho. A virgindade e os bordados (a cirurgia de reconstituição do hímen) também vêm à tona: é que, apesar do desejo que sentem depois de uniões que deram errado, algumas mulheres ainda pensam em se preservar virgens para agradar ao próximo marido. Mas Bordados é uma história de protagonismo feminino, de uma roda de mulheres juntas como um lugar de acolhimento e transformação, tão seguro e confortável como andar de mãos dadas.

 

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Bordados
Marjane Satrapi
editora Companhia das Letras
136  páginas
R$ 34

 

 

 

 

Quarenta dias

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Por Mariana Paiva

Alice, também sou brasileirinha. Cá comigo eu queria escrever de outro jeito, falar pomposo do livro que conta sua história, mas não. Somos irmãs e é assim que tenho que dizer de você. Também me vi perdida sem saber voltar pra casa: já faz quase um ano que a bateria do celular acabou e as ruas me pareceram todas iguais. As mesmas casas, os mesmos muros de hera, as mesmas ruas divididas em quadras. Parei numa porta aberta qualquer e um tal de seu Roberto me disse: “Sua casa é na terceira rua à direita, é só seguir e virar que chega lá”. Minha casa ensinada pelos outros. A primeira vez.

Sou de longe daqui também. Nem sempre chego onde quero. Por vezes os caminhos me enganam e tenho de me contentar com um destino que surge e não escolhi.Também rezei para que houvesse algum Cícero Araújo que, perdido da mãe, virasse assunto e me distraísse de mim. O tempo foi passando e me vi ficando forte, ficando grande. Quando o céu fica muito cinza, confesso que ainda vacilo: fico sonhando com meu verão de antes e longe daqui. Meu verão de quase um ano inteiro, uma vida inteira, todo dia de veraneio na ilha de Itaparica. A areia branca das dunas, o pé descalço, a cara no sereno até tarde.

Isso você entende, né, Alice? Todo mundo ao redor sabia bem da Professora Póli e de mim também. Chegando aqui, pude ser qualquer pessoa, que nem você, aí pras bandas do sul. Seus quarenta dias para mim foram 365 e o relógio ainda contando. Queria um canto que coubesse essa risada escancarada de quem conhece palavras secretas como campado, mulambento e barril. De quem sabe que se o problema é muito e não cabe numa palavra só, é barril dobrado. Um lugar onde o ouvido seja amigo de minha fala cantada, eu mesma ondinha do mar do Rio Vermelho que veio quebrar no concreto.

Só essa saudade que é grande demais para sete letras e talvez para todas as milhares que compõem sua própria história, Alice. Também me procuro nas ruas com nomes desconhecidos, exploro esse novo lugar com olhos cansados e curiosos. Eu que ainda não entendo o kitsch do cuscuz paulista e que enfrento a saudade com mariscada e dendê. Com sorte, entre esses dias e noites que se sucedem, quem sabe uma hora a gente se  encontre em casa, Alice

 

Quarenta dias
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
248 páginas
R$ 39,90

 

 

amor de salvação e estrada aberta

por Mariana Paiva

 

O amor como uma dançarina pequena que baila nua à beira do rio. Como algo possível e belo aos olhos mas impossível de ser tocado. Exatamente porque é pequeno, nu, distante. Assim é em A dançarina de Izu, livro de Yasunari Kawabata.

Numa espécie de road movie japonês, um jovem estudante viaja de olhos e ouvidos atentos a tudo que cruza seu caminho até encontrar uma trupe de artistas. É no encontro com o outro que o solitário protagonista enfim passa a existir ainda mais: nas expectativas – algumas vezes frustradas -, no desejo, na amizade, na possibilidade do amor. E não é assim mesmo, afinal?

E então o amor que não chega a se realizar, como num verso de T.S. Eliot citado numa crônica de Rubem Alves: “Livra-me da dor da paixão não satisfeita, e da dor muito maior da paixão satisfeita”. Para o jovem estudante que pela primeira vez se permite sentir, talvez a paixão satisfeita seja demais. Talvez ele suporte apenas a pouca bagagem que carrega, além do entendimento de que é preciso continuar a viagem. Ainda assim, ele já não é mais o mesmo porque sabe que é possível.

O amor como uma chance de escapar à solidão e à indiferença, como uma tábua de salvação: é essa a bandeira que Kawabata defende com delicadeza em A dançarina de Izu. O jovem segue sendo outro: não se furta às lágrimas em público se assim sentir. Não caminha mais sozinho. A despeito da solidão que ainda aparenta, ele segue novo e vivo pela estrada aberta*

 

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A dançarina de Izu, de Yasunari Kawabata
editora Estação Liberdade
tradução de Carlos Hiroshi Usirono
101 páginas

 

* o final do texto referencia Canto da estrada aberta, de Walt Whitman, um dos poemas mais bonitos que tem

** a edição da Estação Liberdade conta ainda com um ótimo artigo, O século de Kawabata, de Meiko Shimon, que fala mais sobre a vida e a obra do autor do livro e analisa seus temas mais frequentes

Bartleby ou o grande cansaço

por Mariana Paiva

 

Uma televisão em stand-by. Um imenso maquinário de fábrica no domingo à tarde. As folhas das árvores num dia de muito calor. Há uma vida que espera todas as coisas, um lampejo de luz que fará tudo se movimentar novamente. E existe Bartleby, o Escrevente, de Herman Melville: a ausência completa de vontade e de movimento. Uma existência que se arrasta pelos cantos, em silêncio, na esquina da vida dos outros.

Todo dia é tudo igual no escritório de um advogado famoso de Wall Street. Todas as tardes seu funcionário mais velho se irrita e borra os documentos. O outro empregado pragueja contra a mesa que usa, já que nunca consegue mesmo achar uma posição confortável para fazer seu trabalho. Muito movimento que engana os incautos: também nesse mover há inércia. Nada além do esperado acontece. É o mesmo que não acontecer nada.

O que move os personagens é exatamente a chegada de Bartleby, o novo empregado da firma. Convocado a conferir os documentos que copiou, ele se limita a responder ao chefe: “Preferiria não”. Sem maiores justificativas, ele vai aos poucos se afastando do trabalho até chegar ao ponto de permanecer no escritório olhando pela janela. Bartleby não come nada além de biscoitos de gengibre e guarda todo seu salário no fundo de uma gaveta. Gasta menos de cinco centavos por dia e assim suas economias vão crescendo.

Em pouco tempo, já estão todos irritados com sua inércia. Mas o vocabulário dos demais funcionários da firma cresceu: todos agora utilizam a palavra “preferir”. Alguma coisa está se modificando finalmente. Só Bartleby que permanece o mesmo, escondido e silencioso atrás de um biombo. A vida é uma sucessão de dias e Bartleby não resiste e nem briga com isso.

Em vez de consolar o coração curioso do leitor, Melville deixa pra quem lê entender o recado à sua maneira. Talvez Bartleby seja representante de um grande cansaço que acomete a todos uma hora ou outra. Quem sabe uma inércia capaz de movimentar tudo ao seu redor, de tirar todas as coisas do lugar, de mudar todo o rumo da história…Quem sabe?

 

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Bartleby, o Escrevente, de Herman Melville
editora Grua
88 páginas
tradução de Bruno Gambarotto

menina do mar

a menina do mar

por Mariana Paiva

É sobre viver agarrado. Quero conhecer a terra, mas eu sou do mar, a menina pequena que dança avisa. O livro é infantil mas não necessariamente: há quem tenha mais de um metro e meio e reconheça verdades escritas. São muitas. São tantas.

“A menina do mar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, fala sem atalhos ao coração. De novo: é sobre viver agarrado. Se nunca viveu grudado a nada, nunca teve paixão, talvez não entenda. É que a menina precisa de uma nesguinha de mar diante dos olhos. Aprendeu a dormir numa cama macia feita de algas, a dançar a liberdade entre os amigos e as cantigas conhecidas. Vai lá, menina, tenta viver a terra. É que ela tem os olhos longos para conhecer novidades, ela quer ir. Mas é uma menina do mar. E é só no mar que ela dança.

A saudade como uma canção que se ouve no repeat. Isso a menina sente mas não sabe nomear.  “As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas”, ela diz. Ao que o rapaz responde, resumindo tudo: “Isso é por causa da saudade”.

A menina quer sentir as coisas da terra. O cheiro da rosa. O gosto do vinho. A chama do fogo. Mas ela é uma menina do mar. “O mar é minha terra. Tu se vieres para o mar afogas-te. E eu se for para a terra seco. Não posso estar muito tempo fora de água. Fora de água fico como as algas na maré vaza, que ficam todas enrugadas e secas. Se eu saísse do mar, ao fim de algumas horas ficava igual a um farrapo de roupa velha ou a um papel de jornal, destes que às vezes há nas praias e que têm um ar tão triste e infeliz de coisa que já não serve e que foi deitada fora e que já ninguém quer”. Ela sabe a resposta do maior mistério que há, talvez: saber de onde se é. Ela sabe.

E é de certeza é que é feito esse livro. É pequeno, mas é grande, imenso. Quase um tratado filosófico bom em tratar com simplicidade um assunto complexo: um lugar no mundo. É uma menina do mar pequenininha, um palmo de altura. Um rapaz que quer mergulhar no tempo infinito sem perder os sentidos. É uma terra grande e um mar maior ainda. Mas quem é do mar não quer saber de brincar no rasinho, lembra um velho amigo meu

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A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Cosac Naify

48 páginas

Ilustrações de Veridiana Scarpelli