Category Archives: Livros

o canto que eu queria ouvir

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por Mariana Paiva

Era um dia de chuva quando o livro me fisgou. Mordi a isca de palavras ainda na primeira página, desconcertada por tanto. Quando eu preciso de silêncio eu corro pras palavras – é assim comigo desde sempre. E fiquei querendo fazer parte de uma frase, tanto que depois dela,  com a mesma velocidade com a qual abri o livro, fechei:

Pensar em ir embora eu pensava. Difícil era desatar o nó entre o pensamento e os pés.

Nocaute. Entregue estava quando dei por mim, livro fechado no colo, olhar perdido. Eu entendia. Quando um livro te acolhe é assim. Esse é Canto do Uirapuru, de Érica Bombardi, vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional na categoria Literatura Juvenil. Conta a história de Max, um dos moradores de Canto do Uirapuru, um adolescente que vive com sua mãe e seu avô. O pai caiu no mundo. E os três ali, juntos, buscando alegria na polenta do almoço. Sonhando esperança no pacu que o avô jura que vai pescar outra vez no rio.

Livro de amor, coragem, livro de infinito. Então pode ser assim? Fiquei pensando logo que queria ter tido um Canto do Uirapuru pra ler quando eu mesma era menina. Depois pensei: que bom é poder resgatar a meninice apesar da chuva, dos boletos, das eleições. Livro como amor de salvação. Um tempinho a mais vivendo a história de Max, e tava tão bom que eu nem vi quando terminou. Fiquei querendo mais, uma saga, quem sabe mais uns 7 livros que contassem a coragem de Max, um sobre o amor e um – ou dois – sobre a liberdade recém-descoberta de ser quem se é. A delícia que é cada passo do caminho quando só se sabe ir em frente (e ser infinito como se sabe aos 16)

 

Canto do Uirapuru
Érica Bombardi
editora Escrita Fina
156 páginas
R$ 30,90 (livro físico)
R$ 24,10 (e-book)

 

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1968 – o ano que não terminou

IMG_20180527_201431641_2por Mariana Paiva

Uma estante de livro tem seus mistérios, páginas nunca antes exploradas até que, um dia, os olhos pousem numa capa e decidam que é hora. Assim foi com “1968 – o ano que não terminou”, de Zuenir Ventura.  É que voltar ao passado talvez seja mesmo uma boa estratégia para entender melhor o presente e pensar sobre o futuro.

No livro, o jornalista e escritor Zuenir Ventura se debruça sobre o ano de 1968, famoso na história do Brasil pela emissão do Ato Institucional n. 5 (AI-5) pelo então presidente Costa e Silva, que pôs em suspensão as garantias constitucionais, dissolveu o Congresso e terminou de oficializar a prática da tortura no país. O país já vivia sob regime militar desde 1964, mas foi em 1968 que este se endureceu frente às resistências que enfrentava.

Zuenir começa o livro com o último respiro da liberdade no ano duro que estava por vir: a festa de réveillon na casa de Heloísa Buarque de Hollanda. As presenças, os risos, as histórias, as memórias perdidas. E então, após o romper do ano, é a falta de liberdade que impera. A resistência paga seu preço que, a cada dia que passa, se torna mais alto. Os estudantes perseguidos. Artistas humilhados depois que plateias consideram espetáculos teatrais indecentes (aqui o caso Roda Viva, de José Celso, e do sequestro sofrido por  Norma Bengell). Parte da população, distraída, segue sua rotina de idas ao zoológico ou à praia. Prepara o lanche que o filho vai levar para a escola no dia seguinte. Como se nada estivesse acontecendo.

Se o livro de Zuenir tem um mérito definitivo (dentre os muitos outros que possui), é esse: lembrar que uma ditadura militar não acontece do dia pra noite. É preciso adesão popular, é preciso que uma parcela da população esteja alheia, é preciso que outra acredite nos métodos (ainda que duros como a tortura). É preciso que haja nacionalismo (não foi esse elemento, aliás, um dos que serviram para justificar atrocidades como o holocausto?), conservadorismo, pensamento fascista à espreita em cada esquina. 50 anos se passaram e, pelo visto, não estamos assim tão longe de 1968. Pelo contrário: parecemos estar, a cada dia, mais perto.

 

1968
1968 - o ano que não terminou
Zuenir Ventura
Editora Objetiva
320 páginas 

O risonho cavalo do príncipe

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por Mariana Paiva

O acaso continua dono de minhas mãos nas bibliotecas. Quando vejo, chego em casa com um livro sobre o qual nunca li uma linha ou indicação, sem pretensão de ser bom ou ruim, nada de expectativas. Uma novidade sem precedentes essa aposta sem saber o que virá pela frente: mas não é assim também viver? Ser uma leitora aleatória tem me ensinado muito disso.

Voltei para casa com “O risonho cavalo do príncipe”, de José J. Veiga. Gostei do título e trouxe, tal qual menino pequeno quando encarna num brinquedo por causa das cores. E a surpresa que se escondia nas páginas eu não fazia ideia. Essa já era a melhor parte, antes mesmo de começar a leitura.

Só que foi bom. Tão bom que eu, que leio muito rápido, me amarrei pra chegar ao fim porque tava gostando. E a história é sobre acaso: duas crianças e uma tia que, só compreendendo poucas palavras de um livro em alemão deixado para trás por um viajante, decidem inventar a seu gosto uma história. A tia, que sabia um alemão bem rasteiro, conseguiu decifrar apenas que o livro falava de cavalo, príncipe, computadores, porcos e arqueologia. De repente, ela, Mem e a sobrinha César não precisavam de mais do que isso para criar sua própria (e encantadora) história, também sobre acasos. O risonho cavalo do príncipe é um livro sobre acasos que tem outro livro sobre acasos dentro: o do alemão Karl, que sai da Alemanha rumo à Etiópia para procurar o antigo reino das Galimátias. Ele e o guia local Alkilov se agarram aos acasos para seguir viagem.

E a graça é essa mesmo (do livro e também da vida): por vezes não saber onde se está e ir apenas tateando no que acontece para ir adiante. Assim como a história construída por tia Basília, Mem e César, assim como a viagem de Karl e Alkilov, José J. Veiga deixa o leitor passear à vontade por seus devaneios num livro absolutamente divertido e crítico. Seja no cavalo do príncipe que ri diante do elogio aos reinos ou no nojo/estranhamento que os alemães sentem de estar em território africano, tem espaço para crítica. Tudo sem afetação e cheio de ironia.

Ele conhecia bem a mentalidade de europeus que insistem em levar para o estrangeiro até os seus hábitos alimentares, como se fossem a dentadura, a úlcera, a cirrose, e com isso perdem o melhor da viagem, que é a aventura de conhecer comida e sabores diferentes. Por isso é que os restaurantes dos hotéis cinco estrelas do mundo inteiro são detestáveis: a comida tem sempre o mesmo gosto, isto é, nenhum.

“O risonho cavalo do príncipe” é daqueles livros em que o autor abre espaço para quem está lendo criar sua própria história, sem finais demasiadamente conclusivos. São duas histórias, uma dentro da outra, e ainda tem lugar para quem lê. Coisa gostosa de ver na literatura, ainda mais com uma linguagem tão livre e tranquila. Livro bom de fazer companhia na viagem, na praia, no dia de chuva, sem afetação canônica nem nada parecido: talvez seja esse mesmo o maior mérito dessa aventura dupla de José J. Veiga.

 

natureza humana

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por Mariana Paiva

Coisas incríveis acontecem quando a gente deixa o acaso trabalhar. Livro, por exemplo. Tava querendo ler alguma coisa que eu não fizesse ideia de como seria. Nenhuma informação anterior (ou praticamente nenhuma), nenhuma nota de jornal falando sobre. Foi assim que andei por várias prateleiras da biblioteca até encontrar o que procurava: “André Louco” (1978), de Bernardo Élis.

O que eu sabia dele: que era goiano e objeto de pesquisa de Nina, minha amiga. Era isso. A primeira sorte que eu dei foi ter, logo no início do livro, uma ficha autobiográfica dele, que me contou um monte de coisas. Soube que, por conta de uma birra entre seu pai e o mestre-escola da cidade, Bernardo teve que estudar em casa. E que, sendo ele aniversariante do dia 15 de novembro, seu pai lhe dizia que eram em sua honra os foguetes estourados e a bandeira nacional hasteada por toda parte em Corumbá.

E então o livro: “André Louco” reúne cinco contos, incluindo o que empresta o nome ao livro. É nele, aliás, que está o que o livro tem de melhor: aterrorizados com André, um louco que sai a matar quem encontra pelo caminho, os habitantes da cidade se reúnem para agir contra ele.  São os gritos de André a única coisa que foge ao controle da aristocracia local, reunida em salas de visita para conversar amenidades e se gabar de feitos.

precisamos do Louco, seu João. Precisamos muito dele. Sem o Louco ninguém aguenta a insipidez da cidade.

O dia em que os gritos do louco enfim não são ouvidos, entretanto, é um tédio.

E o resto do dia o gramofone alegrou funebremente a cidade, mais deserta, mais muda, onde pairava um vácuo enfadonho, com vozes longes de gente conversando, menino chorando

Entre exorcismos e outras soluções religiosas oferecidas para livrar a cidade de André Louco, o silêncio é conquistado às custas de muitos gritos. Para parar a violência, mais violência. Paradoxal e perfeito como a (des)humanidade, ainda mais nesses tempos.

No último conto do livro, “A lavadeira chamava-se pedra”, mais uma grata surpresa. A lavadeira queria dar uma gaita de presente a seu menino, mas não podia, não tinha dinheiro. E exatamente o ladrão da cidade, o conhecido e antigo gatuno das ruas do local, é quem oferece a prenda. Um coração bom no peito de quem está acostumado a subtrair objetos dos outros, como é que pode?

Nas páginas do livro, Bernardo Élis espalha um tema interessante: o ser humano cheio de paradoxos. Do outro lado, quem lê chega a ter pena de André Louco. Torcer para que a vez de Paratudo chegue. Talvez até chore junto com a lavadeira no fim do conto. Vai entender essa natureza humana tão humana que Bernardo Élis insiste em mostrar…

 

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André Louco
autor: Bernardo Élis
editora: José Olympio
102 páginas

Volto semana que vem

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  • por Mariana Paiva
Muito além das tão conhecidas narrativas de ditadura militar, em que abundam os relatos de prisões arbitrárias e torturas, há as pessoas. E é esse o universo que Maria Pilla descortina em seu livro “Volto semana que vem”. Como numa espécie de diário escrito em primeira pessoa, Maria passeia pelos anos de sua história: a presa política já foi criança, já caminhou por capinzal de guarda pó branco com os colegas para chegar à escola.

Se há um grande mérito neste que é um grande livro sobre a ditadura militar é exatamente sua diferença dos demais: ele é humano, demasiadamente humano. Porque “Volto semana que vem” mostra a trajetória da militante política Maria Pilla sem resumi-la a isso (embora isso seja grande parte de sua história). Apresenta a menina que gostava de voltar para casa de lotação com o pai, a moça cujo coração quase sai pela boca depois de um convite para o cinema (o filme era Easy Rider). Que passeia pela rua Augusta, que vê os conhecidos serem levados e desaparecerem nos porões da ditadura, que se alegra ao sentir o cheiro do manjericão na comida da prisão de Olmos, na Argentina.

Um livro fragmentado, exatamente como quem passa pelas agruras da vida sem esquecer do gosto bom de rabanada. Que ainda se lembra de uma promessa feita a queima-roupa ao pai, avisando que voltaria na semana que vem, e que só se sabe cumprida muitos, muitos anos depois. E que, à revelia das violências e das privações todas de liberdade, ainda lembra de como era não sentir medo:

Agora a escola ficava longe de casa. Tomava-se o bonde até o fim da linha e depois seguia-se a pé pelo capinzal dos terrenos baldios. Todos viam aquela revoada de crianças com seus guarda-pós brancos. O medo dos outros ainda não tinha sido inventado.

“Volto semana que vem”, de Maria Pilla, é, antes de tudo, uma obra de resistência, uma recusa a se envergar diante do peso da vida. Ou quem sabe um ponto de seguimento na história, sensível e necessário.

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Volto semana que vem
Maria Pilla
Cosac Naify, 96 páginas

vamos de mãos dadas

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  • por Mariana Paiva

Desde que a gente é pequeno é assim: um pulo que parece um abismo muito grande, um sabor diferente, tomar injeção, atravessar a rua. Tudo (absolutamente tudo) fica mais fácil de mãos dadas. É um jeito bom de vencer o medo, inaugurar o mundo, de saber que com companhia a vida fica melhor. Disso quem é pequeno sabe demais. Mas o tempo passa, a gente estica e fica achando que virou super, que não precisa mais do outro. Bobagem: precisa sim.

Foi pensando nisso que terminei de ler Bordados, história em quadrinhos de Marjane Satrapi (a mesma de Persépolis, aquela lindeza). No poder que cada história tem, e que ela se torna frutífera mesmo quando é compartilhada. “Ah, mas aquele videozinho do Segredo diz pra gente ser feliz sozinho, pra fazer boca de siri quando o assunto for a própria vida”.  Fica a dica: “feliz” e “sozinho” na mesma frase só funcionam bem um em oposição ao outro.

Dessa alegria em compartilhar sabem também as personagens de Bordados. Reunidas em torno do chá servido no samovar, as mulheres iranianas que fazem parte da família de Marjane revisitam suas próprias histórias e por muitas vezes terminam rindo de dramas vividos. É revolucionário e sutil: a mulher, historicamente isolada nas quatro paredes das casas entre cuidados com seus maridos e filhos, se une a outras para que a vida fique mais leve. E feliz, essa que é a melhor palavra.

Contadas para o grupo de mulheres, as histórias de traições, casamentos forçados e outras dores são transformadas em matéria-prima para que a conversa se estenda mais um pouquinho. A virgindade e os bordados (a cirurgia de reconstituição do hímen) também vêm à tona: é que, apesar do desejo que sentem depois de uniões que deram errado, algumas mulheres ainda pensam em se preservar virgens para agradar ao próximo marido. Mas Bordados é uma história de protagonismo feminino, de uma roda de mulheres juntas como um lugar de acolhimento e transformação, tão seguro e confortável como andar de mãos dadas.

 

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Bordados
Marjane Satrapi
editora Companhia das Letras
136  páginas
R$ 34

 

 

 

 

Quarenta dias

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Por Mariana Paiva

Alice, também sou brasileirinha. Cá comigo eu queria escrever de outro jeito, falar pomposo do livro que conta sua história, mas não. Somos irmãs e é assim que tenho que dizer de você. Também me vi perdida sem saber voltar pra casa: já faz quase um ano que a bateria do celular acabou e as ruas me pareceram todas iguais. As mesmas casas, os mesmos muros de hera, as mesmas ruas divididas em quadras. Parei numa porta aberta qualquer e um tal de seu Roberto me disse: “Sua casa é na terceira rua à direita, é só seguir e virar que chega lá”. Minha casa ensinada pelos outros. A primeira vez.

Sou de longe daqui também. Nem sempre chego onde quero. Por vezes os caminhos me enganam e tenho de me contentar com um destino que surge e não escolhi.Também rezei para que houvesse algum Cícero Araújo que, perdido da mãe, virasse assunto e me distraísse de mim. O tempo foi passando e me vi ficando forte, ficando grande. Quando o céu fica muito cinza, confesso que ainda vacilo: fico sonhando com meu verão de antes e longe daqui. Meu verão de quase um ano inteiro, uma vida inteira, todo dia de veraneio na ilha de Itaparica. A areia branca das dunas, o pé descalço, a cara no sereno até tarde.

Isso você entende, né, Alice? Todo mundo ao redor sabia bem da Professora Póli e de mim também. Chegando aqui, pude ser qualquer pessoa, que nem você, aí pras bandas do sul. Seus quarenta dias para mim foram 365 e o relógio ainda contando. Queria um canto que coubesse essa risada escancarada de quem conhece palavras secretas como campado, mulambento e barril. De quem sabe que se o problema é muito e não cabe numa palavra só, é barril dobrado. Um lugar onde o ouvido seja amigo de minha fala cantada, eu mesma ondinha do mar do Rio Vermelho que veio quebrar no concreto.

Só essa saudade que é grande demais para sete letras e talvez para todas as milhares que compõem sua própria história, Alice. Também me procuro nas ruas com nomes desconhecidos, exploro esse novo lugar com olhos cansados e curiosos. Eu que ainda não entendo o kitsch do cuscuz paulista e que enfrento a saudade com mariscada e dendê. Com sorte, entre esses dias e noites que se sucedem, quem sabe uma hora a gente se  encontre em casa, Alice

 

Quarenta dias
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
248 páginas
R$ 39,90