Category Archives: Crônica

como uma velha amiga que volta

shiva

por Mariana Paiva

Tudo pode mesmo acontecer (ou então é a lua em gêmeos). É essa mágica de um dia acordar e se surpreender gostando, gostando cada vez mais, se espalhando como gato em chão limpo. Sem muita pista você descobre que a grande novidade é estar infinitamente bem: um dia, depois outro e então fica simples. Você lembrou como. As saudades agora são todas suas amigas, sem choro, como aquele xampu de criança: chega de lágrimas.

Como Chico que, depois de sete anos longe do público, reaparece entoando Voltei a cantar. Aquela confiança de meio-dia, aqueles passos largos e certos, sem medo de sol forte nem de vento. A alegria de passar falando com todo mundo, sorrindo, fazendo o que tem de ser feito. E, de repente, uma vontade de mudar tudo, de trocar as coisas todas de lugar, de olhar pra novidade. É bom, né?

E tudo isso ser simples. Fácil como ser infinita, como uma música boa esquecida que de repente a gente começa a cantarolar e descobre que ela nunca saiu da gente. Ah, alegria, puxa a cadeira e senta confortável que eu tenho muita história pra te contar

 

  • na foto, Shiva, deus  hindu da destruição e da transformação
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Música boa?

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  • por Mariana Paiva

 

Sentada na mesa ao lado da minha no restaurante, a professora comenta comigo a alegria de apresentar Os Saltimbancos e Palavra Cantada aos alunos de cinco e seis anos. Elogio, acho bonito o interesse por gente, por dividir com o outro o que a gente gosta. Mas foi cedo demais, confesso. Nem meio minuto depois ela arrematou: “De vez em quando algum chega cantando rap na escola, eu não digo que é errado, mas tento mostrar música de verdade pra eles”.

“Música de verdade”, ela diz. O que é música de verdade? Música “boa”? Quem decide o que é bom e o que é ruim? Dentro dessa teoria, Mano Brown  é música ruim e Bach (outro que a professora citou) é música boa. De verdade. É? É mesmo?

Quando eu era pequena, meus pais me apresentaram a Chico Buarque com um disco dele com o Quarteto em Cy (“Chico em Cy”). A gente também ouvia A-Ha (“Hunting high and low” bombava nas fitas K7 lá em casa). E aí que eu achei de ouvir rap. Tinha uns 10 anos quando me apaixonei por Racionais MC´s. Ouvia “Fim de semana no parque” dia sim dia não, e tenho a memória de boas viagens de ferry boat em que eu preferia ficar dentro do carro (anos 90 podia tudo mesmo) ouvindo minha fita K7 deles. Na verdade, era uma cheia de gravações de Xuxa, mas aí eu cresci (um pouco, porque gente de 10 anos não se governa) e gravei Racionais por cima. Dessas ensolaradas viagens aprendendo a cantar um universo tão diferente do que eu vivi eu nunca esqueci.

Pois é, professora. O rap me criou também e tô aqui de boa. Reconheço Ravi Shankar nos primeiros acordes, adoro Liszt e acho “O homem na estrada”, dos Racionais, uma das coisas mais atuais que tem. Não é um contra o outro: por aqui, em minha vitrola, Rincon Sapiência se mistura de boa com Carole King, Sabotage com Simon & Garfunkel, Leonard Cohen com Timbalada. Se vacilar e a luz apagar, ainda sei de cor um Ragatanga ou um Cerol na Mão. Balanço o pescoço pra imitar “Um morto muito louco” e canto Cream em alto e bom som no carro. Lá da estante, a coleção de clássicos da Caras assiste a tudo sem se chocar. Mozart, Beethoven,  todo mundo feliz.  Música de verdade é a que toca a gente, professora. E vou terminar citando seu preferido, Mano Brown: “deixa o menino”…

 

  • a ilustra linda é a Eleanor Rigby de Moidsch

As palavras

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  • por Mariana Paiva

Existem as palavras, e delas não dá pra ter medo. Cada uma é uma coisa (ou várias), e o bom é isso mesmo. Pudim, por exemplo, só lembra o de minha vó. Há aqueles no potinho, os branquelos, os molengos que mais parecem um flan. Não lembro deles sem algum esforço. Rápido quando ouço “pudim” eu lembro mesmo o de minha vó Iá: douradinho e aerado graças a um segredo na receita que não conto aqui.

E tem domingo. Domingo é outra palavra que não me deixa dúvidas. Tem que ter sol, tem que ser perto do mar e sem hora pra chegar nem ir embora. De segunda-feira também já gostei, eu e a palavra que assusta tanta gente já fomos amigas por nossos próprios motivos. Só sei dizer que era feliz.

O resto eu deixo fluir. Escrevo para não perder o costume das palavras. “Muito”, por exemplo, é uma que a gente estranha se passa algum tempo longe. Fala anasalado, como se houvesse um “n” depois do “i”. Não tem. Mas a gente fala assim mesmo, assim que é bom, é mais bonito talvez.

Para o que sinto, busco nome à toa por aí, mesmo com alguma preguiça de carregar dicionários tão pesados. Criamos tantas palavras que desconhecemos quase todas. As essenciais ainda sigo procurando. Talvez um dia eu invente.

do lado esquerdo do peito

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por Mariana Paiva

Ainda bem que ninguém dá presente hoje. É dia do amigo e a amizade come mesmo é coisa cotidiana: uma cartinha cheia de sementes de agrião, um telefone que toca quase meia noite quando precisam de você, um ouvido, um abraço. Um dia em que você não tá bem e alguém lhe aparece com umas sementes de pimenta fálica pra você plantar e dar risada. É contar o presente de aniversário antes da hora porque a amiga sabe que você vai ficar feliz antecipadamente em saber que é uma cabeça de unicórnio. É uma taça de vinho, uma palavra, uma carta que viaja por continentes até chegar aqui. É um sonho de semente de coentro e um amor tão grande, tão maior. É tanta coisa que não dá pra contar. Um  encontro que dispensa palavras e deixa tudo em suspenso: a amizade.

Há os dias bons e os dias nem tão bons assim. Esses últimos são matéria de tempo, é só ele é quem pode com certas questões. Mas um dia, então outro dia, e quem sabe um reencontro. Amizade também é pra dizer isso: há pontos finais que merecem seguimento. O coração é que sabe quando sim e quando não.

Para as saudades, uma música de Milton sempre presente. É coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito. O mundo tão complicado e esse amor de amigo pronto a acolher, aconchegar, fazer verão. Nesse assunto ninguém precisa dar nome aos bois: quem é sabe (como diz o povo das indiretas). As mãos dadas na vida não deixam negar.

 E um dia pra comemorar sendo pequeno demais para caber a espera, o riso solto, os encontros de quem sabe que, se há um destino bom nessa vida, é o de viver junto. Ninguém é uma ilha. Mas se por acaso eu for uma, que seja uma Itaparica cheia de meus melhores amigos, tomando água de coco e falando bobagens, me fantasiando de festa todo dia, que essa vida não é pra menos. Ser feliz deve ser alguma coisa como isso: boa companhia, o mar indo e vindo e a vida acontecendo – seja lá como for.

* a pintura é “Breakfast in the Open”, de Carl Larsson

amanhece.

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por Mariana Paiva

Eu queria ser capaz de escolher uma coisa só, mas nem vou tentar. É que alegria quando vem de pacote o ideal é abrir e pegar tudo de vez, sair atacando tudo que nem caixa de Bis. Alegria é quando você olha ao redor e acha tudo especial demais de repente: faça chuva ou faça sol pela janela, dentro brilha.

E por isso mesmo agradecer. Aquele brinde de pinot noir na viagem, as papilas gustativas felizes ao encontrar a uva preferida. Uma noite difícil e a vontade quieta pulando no peito de mostrar o sol nascendo tão bonito na estrada às pessoas. Olhe,às vezes a vida é triste, mas tem essa revolução que acontece todo dia à revelia de toda tristeza. Amanhece. E é porque amanhece que tem que matar a saudade da cama da gente, do pijama, de se enfiar embaixo dos lençóis e dormir até mais tarde.

Assistir a  um concerto de crianças violinistas. Entre um intervalo e outro, a alegria saltitando em seus olhos, as roupas arrumadas e os pés de moleque correndo pra lá e pra cá com seus violinos sem medo de chão. Não se avexe não, não tem solenidade certa quando a hora é de alegria. Ou a amiga que senta no chão pra pintar suas unhas da mão direita pra você, logo você, que borra tudo que faz com a mão esquerda. Sim, a alegria, ela de novo. A alegria de ter uma amiga que faz as vezes de sua mão esquerda. Tão bom.

Contra todas as previsões nostradâmicas, contra todas as manchetes de jornal, contra todos os berros, contra todas as violências, só mesmo ela. A alegria, esse negócio universal de tão grande

(amanhã amanhece de novo)
* a imagem linda é de Catrin Welztein

Muito além do jardim

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por Mariana Paiva

Sou menina amarela de apartamento. Ou melhor, era. Fui até cerca de 60 dias atrás, quando me mudei para uma casa. No quintal dela, um jardim tomado por mato de todo jeito, restos de entulho, telhas soltas. Comecei então a ver coisas que nunca tinha visto. Meus olhos se abriram nas prateleiras dos mercados para luvas de jardinagem, enxadinhas, pás, mangueiras. Mudinhas de plantas. Estava ao meu alcance transformar aquela bagunça no que eu quisesse. Descobri rápido.

Aprendi a gostar daquele tom marrom típico de terra. Parei de ter nojo de minhoca quando peguei uma na mão, cheia de uma coragem que nem sabia que tinha. Capinei, tirei o lixo, fui jogando pro canto tudo o que eu não queria mais pro jardim. Mesmo achando um ou outro matinho mais bonitinho, aprendi a arrancar. Mato não pode ficar no lugar da planta que você quer. Aí uma lição que vou levar pra vida, e vale pra tudo: gente, trabalho, amor, amizade.

E então a lição maior: a paciência. Esperar um dia e outro e mais outro até ver que o hortelã quis ficar. Que o pé de manjericão agora balança frondoso e gordinho com o vento que passa. Jardim pede água, carinho, tempo. Pede espera. Pede um olhar de manhã cedinho pra ver se todo mundo tá feliz na terra nova. É se derreter ao ver mais uma pimenta vermelhinha pendendo do pé. Uma tímida pitanga anunciando uma multidão futura delas. As rosas colorindo tudo. Primavera pode ser sempre, coração sabe. Jardim é um jeito bom de aprender amor.

she´s like a rainbow

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por Mariana Paiva

Há uma novidade imprevista que é capaz de ensolarar qualquer tarde cinza. Um dia de sol que vive no horizonte. A coragem. Com ela vem junto a alegria, sim, essas palavras tão etéreas que eu queria para sempre grudadas em minha boca. Tantos meses adiando, procrastinando. Uma hora qualquer vai ser a certa. E quando for vai ser tão bom.

E de repente enfim é a hora. Um telefonema que resolve tudo. Os fantasmas que a gente cria: vai ser difícil vai dar tudo errado vai complicar. E aí a hora que a coragem se apresenta, tudo fácil como um telefonema de dois minutos para desenrolar qualquer coisa que parecia impossível. Tão simples. E uma risada que surge sem vergonha, aumentando a música, cantando junto. É a alegria. Ela chegou.

E é como um verão, uma segunda-feira de folga na praia, um banho de mar seguido de banho de piscina. De vez em quando estar como se fosse um dia de férias, Rolling Stones tocando altão para não te deixar esquecer que você é um arco-íris (estiagem colorida depois da chuva)

 

(e viva o rock ´n´roll)