Category Archives: Crônica

SOL DE PRIMAVERA, ABRE AS JANELAS DE MEU PEITO

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Por Mariana Paiva

 

Se você ainda estivesse aí, quer dizer, de algum jeito você ainda está, eu dava aquela risada que você gosta e diria: tô feliz. Sim, apesar de saudade e é tanta, tanta, que o coração refaz sozinho todos os trajetos, que quando dou por mim o pensamento vai longe e nem sei direito onde estou. É preciso aquele truque de quem segue Eckhard Tolle de estalar os dedos e dizer que estou aqui para realmente estar.

Sorriso de primavera, você disse. Guardo as três palavras e levo para onde vou: é preciso florir, né? Sorriso de primavera. Não de outono, não de verão, menos ainda de inverno. Sorriso de primavera. Sorrio com a boca e com os olhos rapidinho assim, danço sob uma nuvem de lavanda, sou bailarina em sonho. As mãos delicadas como a de uma pianista clássica se balançam no ar, o mínimo atrito, leveza.

Quando tudo é silêncio eu abro meu peito para deixar as memórias arejarem, tomarem o sol desse outono/primavera da gente. De portas e janelas escancaradas meu peito é todo dessa lembrança feliz. Secretamente sei dançar. E danço

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PEQUENO MANUAL DE DIA DA MULHER PARA PUBLICITÁRIOS

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  • por Mariana Paiva

O dia da mulher vem chegando e, com ele, as inúmeras pedradas e cagadas (não tem outra palavra, sorry) da publicidade. A mais recente e a pior de todas – até aqui, enquanto escrevo o texto, lembrando que a lei de Murphy é a pior inimiga da mulher – foi essa que vou comentar. E olha que é difícil eleger uma pior com tanto sorteio de batedeira e aspirador de pó nas empresas. Com tanta distribuição de florzinha um dia do ano quando o contracheque mostra salários menores para as mulheres que exercem as mesmas funções que os homens.

Estamos em Salvador, o ano é 2018. O bar já é famoso – não pelo chope geladíssimo, não pelo ambiente descolado, mas pelos foras no entendimento de como tratar mulheres. No dia de open bar, as mulheres entram de graça, um chamariz maravilhoso para os homens que frequentam o lugar. E enche, naturalmente.

A campanha desse ano é tão surrealmente machista que chega até a ficar difícil explicar. A ideia é a seguinte: amanhã, que calhou de cair no dia do famoso open bar, a mulher que for vai ganhar um presente incrível. Quer dizer, na verdade, quem vai ganhar o presente é o homem. Aí ele decide se vai ser “gentil” em ceder o mimo a alguma das mulheres presentes. Sim, você leu certo. 1950 tá ligando e esse pessoal tá atendendo.

Não, gente. Não é assim que faz publicidade para o dia da mulher. Em 2018, não queremos ganhar nada de ninguém. É que não estamos acostumadas a sermos favorecidas, exceto nos naufrágios. Tudo o que temos nós lutamos pra conseguir: foram quilos e mais quilos de sutiãs queimados (e que continuamos queimando, cada uma a seu jeito) pra sobreviver nesse mundo cão. E os homens já ganham presentes todo dia, qual a novidade? Precisa ser dia da mulher? Eles já têm os melhores cargos, os melhores salários, a preferência nas entrevistas de emprego. Vai presentear homem em pleno dia da mulher? Me faça uma garapa, vá.

Isso só me mostra uma coisa das mais urgentes: pelamordedeus, coordenações de cursos de publicidade, vamos falar mais de mulheres. de negros (olha aí a pedrada do papel Neve preto). de uniões homoafetivas. Os alunos precisam melhorar pra que não cresçam e dêem uns vexames assim, poxa, fica feio pra quem formou também. Vamos melhorar essas grades curriculares, dar palestras a esses meninos, ensinar empatia, já que em casa a gente sabe como é.

Fica aqui minha dica pro bar: na dúvida, é melhor fazer uma caça ao tesouro (só de mulheres, naturalmente). Estamos acostumadas a ir atrás do que a gente quer. Mas ganhar não, ganhar nunca. E “gentileza” de homem em open bar no dia da mulher quer dizer qualquer coisa, menos gentileza. Prefiro não.

 

  • a imagem é da obra “Como é que eu devo fazer um muro no fundo da minha casa”, de Bispo do Rosário

meu desejo de esperar

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por Mariana Paiva

 

O povo passava na rua, um cheiro danado de comida e era perto da hora do almoço. Eu vou dizer a verdade que não vi muito do que acontecia ao meu redor. Quando dei por mim, já cantava. Cantava baixinho, afinada. Não lembro a música. Mas foi bom, tão bom, uma epifania sob aquele sol sem trégua. O borracheiro consertando o carro e eu cantando pra alguém ouvir. Qualquer hora dessas a canção me volta.

De vez em quando a gente lembra que canta. E então uma música velha, coisa do tempo em que eu escutava rádio todo dia. O jabá devia ser bom porque essa toda hora tocava. Eu gostava tanto. Mas não me lembrava da última vez que soltara a voz com tanta vontade depois daquele dia na rua, sem vergonha, cantando tão bonito, daquele jeito que a gente só canta pra quem sabe de nossos mistérios. Nossos escuros. Lembrava tanto da letra que parecia que tinha sido ontem aquela tarde branca em Salvador, o caderno os livros as canetas, tudo espalhado sobre a cama, o rádio enfim acertando na programação, minha música tocava. Naquele tempo a música que tocava era sempre a minha. Minha.

Canto e estou de novo na praça Tomé de Souza. Essa voz te devolve coisas, menina, coisas que você pensava esquecidas. Te devolve a noite, o mendigo com a mão na barriga, te devolve a fome, aquela que há muito você não sente. Você canta. Sabe que vai ser sempre assim: esquecimento e então lembrança. Canta sem medo de desafino, canta sem medo dos graves, dos agudos. Canta e sorri, infinita.

 

  • a foto é um frame de “San Junipero”, episódio de Black Mirror

como uma velha amiga que volta

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por Mariana Paiva

Tudo pode mesmo acontecer (ou então é a lua em gêmeos). É essa mágica de um dia acordar e se surpreender gostando, gostando cada vez mais, se espalhando como gato em chão limpo. Sem muita pista você descobre que a grande novidade é estar infinitamente bem: um dia, depois outro e então fica simples. Você lembrou como. As saudades agora são todas suas amigas, sem choro, como aquele xampu de criança: chega de lágrimas.

Como Chico que, depois de sete anos longe do público, reaparece entoando Voltei a cantar. Aquela confiança de meio-dia, aqueles passos largos e certos, sem medo de sol forte nem de vento. A alegria de passar falando com todo mundo, sorrindo, fazendo o que tem de ser feito. E, de repente, uma vontade de mudar tudo, de trocar as coisas todas de lugar, de olhar pra novidade. É bom, né?

E tudo isso ser simples. Fácil como ser infinita, como uma música boa esquecida que de repente a gente começa a cantarolar e descobre que ela nunca saiu da gente. Ah, alegria, puxa a cadeira e senta confortável que eu tenho muita história pra te contar

 

  • na foto, Shiva, deus  hindu da destruição e da transformação

Música boa?

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  • por Mariana Paiva

 

Sentada na mesa ao lado da minha no restaurante, a professora comenta comigo a alegria de apresentar Os Saltimbancos e Palavra Cantada aos alunos de cinco e seis anos. Elogio, acho bonito o interesse por gente, por dividir com o outro o que a gente gosta. Mas foi cedo demais, confesso. Nem meio minuto depois ela arrematou: “De vez em quando algum chega cantando rap na escola, eu não digo que é errado, mas tento mostrar música de verdade pra eles”.

“Música de verdade”, ela diz. O que é música de verdade? Música “boa”? Quem decide o que é bom e o que é ruim? Dentro dessa teoria, Mano Brown  é música ruim e Bach (outro que a professora citou) é música boa. De verdade. É? É mesmo?

Quando eu era pequena, meus pais me apresentaram a Chico Buarque com um disco dele com o Quarteto em Cy (“Chico em Cy”). A gente também ouvia A-Ha (“Hunting high and low” bombava nas fitas K7 lá em casa). E aí que eu achei de ouvir rap. Tinha uns 10 anos quando me apaixonei por Racionais MC´s. Ouvia “Fim de semana no parque” dia sim dia não, e tenho a memória de boas viagens de ferry boat em que eu preferia ficar dentro do carro (anos 90 podia tudo mesmo) ouvindo minha fita K7 deles. Na verdade, era uma cheia de gravações de Xuxa, mas aí eu cresci (um pouco, porque gente de 10 anos não se governa) e gravei Racionais por cima. Dessas ensolaradas viagens aprendendo a cantar um universo tão diferente do que eu vivi eu nunca esqueci.

Pois é, professora. O rap me criou também e tô aqui de boa. Reconheço Ravi Shankar nos primeiros acordes, adoro Liszt e acho “O homem na estrada”, dos Racionais, uma das coisas mais atuais que tem. Não é um contra o outro: por aqui, em minha vitrola, Rincon Sapiência se mistura de boa com Carole King, Sabotage com Simon & Garfunkel, Leonard Cohen com Timbalada. Se vacilar e a luz apagar, ainda sei de cor um Ragatanga ou um Cerol na Mão. Balanço o pescoço pra imitar “Um morto muito louco” e canto Cream em alto e bom som no carro. Lá da estante, a coleção de clássicos da Caras assiste a tudo sem se chocar. Mozart, Beethoven,  todo mundo feliz.  Música de verdade é a que toca a gente, professora. E vou terminar citando seu preferido, Mano Brown: “deixa o menino”…

 

  • a ilustra linda é a Eleanor Rigby de Moidsch

As palavras

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  • por Mariana Paiva

Existem as palavras, e delas não dá pra ter medo. Cada uma é uma coisa (ou várias), e o bom é isso mesmo. Pudim, por exemplo, só lembra o de minha vó. Há aqueles no potinho, os branquelos, os molengos que mais parecem um flan. Não lembro deles sem algum esforço. Rápido quando ouço “pudim” eu lembro mesmo o de minha vó Iá: douradinho e aerado graças a um segredo na receita que não conto aqui.

E tem domingo. Domingo é outra palavra que não me deixa dúvidas. Tem que ter sol, tem que ser perto do mar e sem hora pra chegar nem ir embora. De segunda-feira também já gostei, eu e a palavra que assusta tanta gente já fomos amigas por nossos próprios motivos. Só sei dizer que era feliz.

O resto eu deixo fluir. Escrevo para não perder o costume das palavras. “Muito”, por exemplo, é uma que a gente estranha se passa algum tempo longe. Fala anasalado, como se houvesse um “n” depois do “i”. Não tem. Mas a gente fala assim mesmo, assim que é bom, é mais bonito talvez.

Para o que sinto, busco nome à toa por aí, mesmo com alguma preguiça de carregar dicionários tão pesados. Criamos tantas palavras que desconhecemos quase todas. As essenciais ainda sigo procurando. Talvez um dia eu invente.

do lado esquerdo do peito

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por Mariana Paiva

Ainda bem que ninguém dá presente hoje. É dia do amigo e a amizade come mesmo é coisa cotidiana: uma cartinha cheia de sementes de agrião, um telefone que toca quase meia noite quando precisam de você, um ouvido, um abraço. Um dia em que você não tá bem e alguém lhe aparece com umas sementes de pimenta fálica pra você plantar e dar risada. É contar o presente de aniversário antes da hora porque a amiga sabe que você vai ficar feliz antecipadamente em saber que é uma cabeça de unicórnio. É uma taça de vinho, uma palavra, uma carta que viaja por continentes até chegar aqui. É um sonho de semente de coentro e um amor tão grande, tão maior. É tanta coisa que não dá pra contar. Um  encontro que dispensa palavras e deixa tudo em suspenso: a amizade.

Há os dias bons e os dias nem tão bons assim. Esses últimos são matéria de tempo, é só ele é quem pode com certas questões. Mas um dia, então outro dia, e quem sabe um reencontro. Amizade também é pra dizer isso: há pontos finais que merecem seguimento. O coração é que sabe quando sim e quando não.

Para as saudades, uma música de Milton sempre presente. É coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito. O mundo tão complicado e esse amor de amigo pronto a acolher, aconchegar, fazer verão. Nesse assunto ninguém precisa dar nome aos bois: quem é sabe (como diz o povo das indiretas). As mãos dadas na vida não deixam negar.

 E um dia pra comemorar sendo pequeno demais para caber a espera, o riso solto, os encontros de quem sabe que, se há um destino bom nessa vida, é o de viver junto. Ninguém é uma ilha. Mas se por acaso eu for uma, que seja uma Itaparica cheia de meus melhores amigos, tomando água de coco e falando bobagens, me fantasiando de festa todo dia, que essa vida não é pra menos. Ser feliz deve ser alguma coisa como isso: boa companhia, o mar indo e vindo e a vida acontecendo – seja lá como for.

* a pintura é “Breakfast in the Open”, de Carl Larsson