Category Archives: Crônica

Muito além do jardim

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por Mariana Paiva

Sou menina amarela de apartamento. Ou melhor, era. Fui até cerca de 60 dias atrás, quando me mudei para uma casa. No quintal dela, um jardim tomado por mato de todo jeito, restos de entulho, telhas soltas. Comecei então a ver coisas que nunca tinha visto. Meus olhos se abriram nas prateleiras dos mercados para luvas de jardinagem, enxadinhas, pás, mangueiras. Mudinhas de plantas. Estava ao meu alcance transformar aquela bagunça no que eu quisesse. Descobri rápido.

Aprendi a gostar daquele tom marrom típico de terra. Parei de ter nojo de minhoca quando peguei uma na mão, cheia de uma coragem que nem sabia que tinha. Capinei, tirei o lixo, fui jogando pro canto tudo o que eu não queria mais pro jardim. Mesmo achando um ou outro matinho mais bonitinho, aprendi a arrancar. Mato não pode ficar no lugar da planta que você quer. Aí uma lição que vou levar pra vida, e vale pra tudo: gente, trabalho, amor, amizade.

E então a lição maior: a paciência. Esperar um dia e outro e mais outro até ver que o hortelã quis ficar. Que o pé de manjericão agora balança frondoso e gordinho com o vento que passa. Jardim pede água, carinho, tempo. Pede espera. Pede um olhar de manhã cedinho pra ver se todo mundo tá feliz na terra nova. É se derreter ao ver mais uma pimenta vermelhinha pendendo do pé. Uma tímida pitanga anunciando uma multidão futura delas. As rosas colorindo tudo. Primavera pode ser sempre, coração sabe. Jardim é um jeito bom de aprender amor.

she´s like a rainbow

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por Mariana Paiva

Há uma novidade imprevista que é capaz de ensolarar qualquer tarde cinza. Um dia de sol que vive no horizonte. A coragem. Com ela vem junto a alegria, sim, essas palavras tão etéreas que eu queria para sempre grudadas em minha boca. Tantos meses adiando, procrastinando. Uma hora qualquer vai ser a certa. E quando for vai ser tão bom.

E de repente enfim é a hora. Um telefonema que resolve tudo. Os fantasmas que a gente cria: vai ser difícil vai dar tudo errado vai complicar. E aí a hora que a coragem se apresenta, tudo fácil como um telefonema de dois minutos para desenrolar qualquer coisa que parecia impossível. Tão simples. E uma risada que surge sem vergonha, aumentando a música, cantando junto. É a alegria. Ela chegou.

E é como um verão, uma segunda-feira de folga na praia, um banho de mar seguido de banho de piscina. De vez em quando estar como se fosse um dia de férias, Rolling Stones tocando altão para não te deixar esquecer que você é um arco-íris (estiagem colorida depois da chuva)

 

(e viva o rock ´n´roll)

voz no ouvido

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por Mariana Paiva

Você ainda tem voz pra cantar. Então aperte o rec e cante aquela canção tão bonita de Chet Baker que você gosta tanto. Ainda tem voz. Se desafinar é porque tá cantando, então continue. Até o final. Mesmo que a voz suma, mesmo que as cordas vocais peçam uma trégua. Cante. Cante do jeito que sabe e vai ser lindo.

Mas só vai ser lindo se for no ouvido que é o amigo da voz. Qualquer outro ouvido corre o risco de se distrair pensando no trabalho, na conta pra pagar, no amanhã. Ou de achar feio, pensar que a métrica podia ser melhor, dizer que tá fora do tom. Pra ser lindo tem que ser o ouvido certo. Não adianta teorizar e não ser o ouvido ideal. O ouvido certo apenas o é, sem nenhuma teoria nem complemento. É definitivo, intransitivo em sua escuta de transformar tudo em lindeza.

E a voz que fica tão bonita pro ouvido certo. Que se entrega em refrões apaixonados sem se importar se, ao falar de saudade, a voz embarga um pouco. Quem foi mesmo que escreveu essa música? Se a melodia for triste, troque por outra. Mas cante. Mesmo desafinando. Pro ouvido certo vai ser sempre lindo. Cante. Você ainda tem voz pra cantar.

* a ilustração é de Rebecca Dautremer

E a Bahia só tem uma

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por Mariana Paiva

Vou te contar: de saudade não se morre. Mas é que a visão vai ficando turva de tanto asfalto, de tanto dia que se arrasta até que enfim se poste diante dos olhos meu mar. É uma faixa de água que se estende de um canto a outro da costa, tem a baía, olhe, de geografia eu não entendo muito não. De Bahia, sim.

Bahia é aquela saudade que fez Arthur dizer, no meio da corrida de Uber em São Paulo, que todo lugar é bom, mas que a Bahia é diferente. Que lá é melhor. E olhar dele passeou sonhou viajou um pouquinho pro vilarejo pequenininho onde nasceu, onde vai, se Deus quiser, no fim do ano. Matar saudade. Quem tá longe da Bahia só fala nisso.

Ou então Bahia é aquela alegria infantil no olhar de Lázaro em andar pela calçada perto do mar . Passar um grupo de pessoas dizendo que mais tarde vai vê-lo. “Que horas?”, Lázaro quer saber. “Sei não, depois da praia”, a resposta vem. Depois da praia. Porque  na Bahia se sabe que antes da praia não tem nada: que se a Bahia é, é depois de entrar no mar, de pedir benção à sereia. E  um olhar brincalhão querendo correr sobre  a rampa do Teatro Castro Alves.  Na Bahia também fico menina, Lázaro, eu entendo.

E Vânia, do outro lado do balcão de café no supermercado. O riso solto tirando o café da máquina, riso solto servindo, riso solto lembrando meu nome quando chego pela segunda vez. E vem a pergunta sorridente: “Você é da Bahia?”. Eu sou. “Então é duas”, ela anuncia, morrendo de rir, já com a mão no ar pra eu bater a minha. Bahia também é a mão amiga de Vânia na minha ali por instantes, receita pra chegar em casa mesmo mais de dois mil quilômetros além. O resto é domingo. E espera.

 

  • a foto é minha mesmo, de meu Portinho da Barra ❤
  • o título é um pedaço da canção Beira-Mar, de Gilberto Gil

 

o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente

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por Mariana Paiva

*

Cresci com meu pai cantarolando Belchior pela casa. Era a vida ficar um pouquinho dura e ele já me repetia os versos  “A minha alucinação é suportar o dia a dia”. Gostar eu não gostava não. Era uma raridade eu não querer uma música trazida por meu pai, mas aquelas de Belchior eu não queria. Porque ele cantava rápido. Embolava as palavras. E eu queria tudo dito devagar. Pra que a pressa? Eu achava que tinha todo o tempo do mundo.

Boba. Bastou a vida me chamar com seus dias que passam rápido demais que fui me aconchegar em Belchior. Não faz muito tempo não, aliás: foi bem quando ele caiu no mundo sem destino que me vi precisando dele. Era uma rebeldia de cantar como desse vontade, correr contra o desejo da música de ir com calma. Sim, porque a vida não vai devagarzinho. É deitar pra dormir e acordar e tá tudo diferente. Já. É sempre já. E eu descobri.

Precisei de uma música pra (me) abraçar.  No horizonte estava um Belchior sumido no mundo e que de repente passou a fazer todo sentido pra mim. Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção. Aquele coração selvagem dentro do meu peito enfim musicado, transformado em verso do início ao fim. Um repeat infinito pra vida inteira, vontade de gravar na pele pra nunca esquecer. Cante rápido mesmo, Bel. Embole as palavras e tenha pressa porque você tá certo: o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente, tome um refrigerante, coma um cachorro-quente. Onde quer que você esteja nesse mundão de meu Deus, celebre esse som, essa fúria, essa pressa de viver. Na contramão que anda todo mundo que sente, é bem mais alegre com sua voz pra cantar meu hino pra mim

 

Feliz 70, my dear

A mulher e a cozinha da história

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Por Mariana Paiva

Houve um tempo em que as mulheres posavam para fotos oficiais como protagonistas. Houve um tempo, sim, e não faz muito. E então um novo governo com o passado eternizado na fotografia: ternos bem cortados (possivelmente italianos), gel nos cabelos, cara de sucesso. Um governo feito somente de homens. “Mas o critério tem que ser mérito, não gênero”, dirão os incautos. Sim,  e é por essa mesma razão que precisamos das mulheres nos ministérios.

Mas que não seja um ministério de princesas. De moças de fala mansa e salto 15, mais preocupadas em ajeitar a gravata do par do que com seu próprio discurso. Que não sejam Belas, Auroras ou Brancas de Neve como tantas menininhas em suas fantasias. Que sejam Carolinas de Jesus, Fridas, Clarices, Hildas. Mulheres capazes de escrever suas próprias histórias, escolhendo o caminho de acordo com o critério mais importante do mundo: a vontade.

Basta abrir a porta e constatar: elas já estão espalhadas por aí. Nas chefias das empresas, nos cargos principais das redações, nas universidades, nas ruas. Tanto caminhar apesar do mundo cor de rosa que tentam lhes atribuir como único possível. As mulheres resistem. De salto ou de rasteira, com filho ou sem, sangrando todo mês e sobrevivendo assim mesmo. Dando plantão, acordando cedo, pulando a hora do almoço. É que ser mulher tem disso: é preciso uma força a mais para abrir espaço num país que às vezes prefere ser uma foto só de homens.

Ser mulher e viver no Brasil é sobreviver. É deixar a delicadeza de lado para enfrentar as ruas cheias de cantadas e viradas de rosto, os assediadores nos ônibus, os salários menores no trabalho. É ser perguntada sobre maternidade nas entrevistas de emprego e ser preterida se a resposta for sim. É passar a vida inteira resistindo, exigindo respeito, falando com firmeza. Ser mulher no Brasil – olhando bem aquela foto nova do presidente e de seus ministros – dá um desgosto tão grande que talvez fosse melhor nem ser. À revelia desse rancor que a empurra de novo para a cozinha da história, a mulher resiste. O nome de sua força ancestral: coragem.

 

  • a pintura é de Frida Kahlo

Queda livre

elgaucho

por Mariana Paiva

Ir por onde nunca fui. Os pés descalços. Quero saber como é o mundo. O que é que tem depois dali? Vamos. Você não tem medo? Claro que tenho. A perna treme sozinha, o coração dispara mas eu vou. Eu vou porque sou eu que escolho. Em frente.

Alguém devia avisar: liberdade vicia. Vento na cara, novidade, velocidade. E o depois do limite. Agora posso mais. Fiquei poderosa, dona do mundo, sabe até onde eu posso ir? Nem eu. E a graça ser exatamente essa: ser grande, ilimitada. Nada de “conhece-te a ti mesmo”. Antes disso, desconhece-te. Esquece de onde você achava que começava e terminava. Reinventa tudo. Sem começo, sem meio, sem fim. Livre assim.

Me desenha como um passarinho. Sim, voando. Mas se é assim mesmo que eu sonho? Eu sei voar. Tem dia que a asa acorda tímida, mas lá de dentro, um pedacinho quente me lembra que sei. E então um caminho novo que faz o olho brilhar. Vai ou não vai? Vou sim. Quem chama é natureza de bicho selvagem, criado solto. Fera risonha que gosta de carinho.

Faz muito tempo a grande verdade que Ivan disse. Uma leoa correndo de cabelo solto e o vento, o vento. Uns poemas no meio do caminho. O vento. A leoa correndo sem parar. Pra que parar, afinal? Bom é ir. Coração bem sabe, esquece não.

 

 

* para Ivan Cerqueira, por uma lembrança tão boa

** para Iracema e Dora, que voam junto

*** a ilustra linda é de “El Gaucho”, de Milo Manara ❤

**** trilha sonora: “Queda livre” – Cascadura