Category Archives: Memória

amanhece.

catrinwelzstein2

por Mariana Paiva

Eu queria ser capaz de escolher uma coisa só, mas nem vou tentar. É que alegria quando vem de pacote o ideal é abrir e pegar tudo de vez, sair atacando tudo que nem caixa de Bis. Alegria é quando você olha ao redor e acha tudo especial demais de repente: faça chuva ou faça sol pela janela, dentro brilha.

E por isso mesmo agradecer. Aquele brinde de pinot noir na viagem, as papilas gustativas felizes ao encontrar a uva preferida. Uma noite difícil e a vontade quieta pulando no peito de mostrar o sol nascendo tão bonito na estrada às pessoas. Olhe,às vezes a vida é triste, mas tem essa revolução que acontece todo dia à revelia de toda tristeza. Amanhece. E é porque amanhece que tem que matar a saudade da cama da gente, do pijama, de se enfiar embaixo dos lençóis e dormir até mais tarde.

Assistir a  um concerto de crianças violinistas. Entre um intervalo e outro, a alegria saltitando em seus olhos, as roupas arrumadas e os pés de moleque correndo pra lá e pra cá com seus violinos sem medo de chão. Não se avexe não, não tem solenidade certa quando a hora é de alegria. Ou a amiga que senta no chão pra pintar suas unhas da mão direita pra você, logo você, que borra tudo que faz com a mão esquerda. Sim, a alegria, ela de novo. A alegria de ter uma amiga que faz as vezes de sua mão esquerda. Tão bom.

Contra todas as previsões nostradâmicas, contra todas as manchetes de jornal, contra todos os berros, contra todas as violências, só mesmo ela. A alegria, esse negócio universal de tão grande

(amanhã amanhece de novo)
* a imagem linda é de Catrin Welztein

voz no ouvido

rebeccadautremer

por Mariana Paiva

Você ainda tem voz pra cantar. Então aperte o rec e cante aquela canção tão bonita de Chet Baker que você gosta tanto. Ainda tem voz. Se desafinar é porque tá cantando, então continue. Até o final. Mesmo que a voz suma, mesmo que as cordas vocais peçam uma trégua. Cante. Cante do jeito que sabe e vai ser lindo.

Mas só vai ser lindo se for no ouvido que é o amigo da voz. Qualquer outro ouvido corre o risco de se distrair pensando no trabalho, na conta pra pagar, no amanhã. Ou de achar feio, pensar que a métrica podia ser melhor, dizer que tá fora do tom. Pra ser lindo tem que ser o ouvido certo. Não adianta teorizar e não ser o ouvido ideal. O ouvido certo apenas o é, sem nenhuma teoria nem complemento. É definitivo, intransitivo em sua escuta de transformar tudo em lindeza.

E a voz que fica tão bonita pro ouvido certo. Que se entrega em refrões apaixonados sem se importar se, ao falar de saudade, a voz embarga um pouco. Quem foi mesmo que escreveu essa música? Se a melodia for triste, troque por outra. Mas cante. Mesmo desafinando. Pro ouvido certo vai ser sempre lindo. Cante. Você ainda tem voz pra cantar.

* a ilustração é de Rebecca Dautremer

E a Bahia só tem uma

portodabarra

por Mariana Paiva

Vou te contar: de saudade não se morre. Mas é que a visão vai ficando turva de tanto asfalto, de tanto dia que se arrasta até que enfim se poste diante dos olhos meu mar. É uma faixa de água que se estende de um canto a outro da costa, tem a baía, olhe, de geografia eu não entendo muito não. De Bahia, sim.

Bahia é aquela saudade que fez Arthur dizer, no meio da corrida de Uber em São Paulo, que todo lugar é bom, mas que a Bahia é diferente. Que lá é melhor. E olhar dele passeou sonhou viajou um pouquinho pro vilarejo pequenininho onde nasceu, onde vai, se Deus quiser, no fim do ano. Matar saudade. Quem tá longe da Bahia só fala nisso.

Ou então Bahia é aquela alegria infantil no olhar de Lázaro em andar pela calçada perto do mar . Passar um grupo de pessoas dizendo que mais tarde vai vê-lo. “Que horas?”, Lázaro quer saber. “Sei não, depois da praia”, a resposta vem. Depois da praia. Porque  na Bahia se sabe que antes da praia não tem nada: que se a Bahia é, é depois de entrar no mar, de pedir benção à sereia. E  um olhar brincalhão querendo correr sobre  a rampa do Teatro Castro Alves.  Na Bahia também fico menina, Lázaro, eu entendo.

E Vânia, do outro lado do balcão de café no supermercado. O riso solto tirando o café da máquina, riso solto servindo, riso solto lembrando meu nome quando chego pela segunda vez. E vem a pergunta sorridente: “Você é da Bahia?”. Eu sou. “Então é duas”, ela anuncia, morrendo de rir, já com a mão no ar pra eu bater a minha. Bahia também é a mão amiga de Vânia na minha ali por instantes, receita pra chegar em casa mesmo mais de dois mil quilômetros além. O resto é domingo. E espera.

 

  • a foto é minha mesmo, de meu Portinho da Barra ❤
  • o título é um pedaço da canção Beira-Mar, de Gilberto Gil

 

Carta a P.

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por Mariana Paiva

*

P,

A força eu descobri do jeito inverso: na sessão da tarde, os heróis já são fortes e por isso se aventuram. Me aventurei pra descobrir a força ancestral guardada nas entranhas, não é louco isso?  Mas vou guardar a descoberta como um segredo bom de saber, exceto pra você. Você não é todo mundo: tem essa alegria que explode de repente e mancha tudo de risada boa (mesmo que a piada seja ruim).

Aliás era disso mesmo que eu queria falar: a alegria desordenada de quem gosta de viver. Aqui faz frio, e cá entre nós, acho mesmo que o mar faz uma falta danada. Não só pra mim.  Tenho feito pesquisas empíricas e cada vez mais percebo que a brisa do mar todo dia tem efeitos muito positivos para o cérebro. Ajuda a mover os móveis da casa para ver tudo diferente, ajuda a passear nas feiras, conversar com as pessoas, comprar flores para enfeitar tudo. O enfeite – aqui em minha teorização absolutamente minha – está diretamente ligado às propriedades da brisa do mar. Inclusive ajuda a não olhar o relógio (ou “destemperar o tempo”, como você me disse já).

Faz frio mas é só um pouquinho porque não tem alma acostumada à alegria que escolha tão longamente o inverno. Tô ouvindo música nova, comendo o que não comia antes, aproveitando as novidades. Continuo sem raiz fincada.  Only this darkness before você sabe. Talvez um certo inferno astral. Palavra pra que? Coração sabe quando. Talvez um hora dessas eu apareça por aí, olhos sorrindo outra vez, vestido solto, pernas de fora, como se nunca tivesse deixado de ser verão, um beijo

(just pretty lies)

  • o desenho que te mando é de Manara. ele é que sabe das coisas

 

Queda livre

elgaucho

por Mariana Paiva

Ir por onde nunca fui. Os pés descalços. Quero saber como é o mundo. O que é que tem depois dali? Vamos. Você não tem medo? Claro que tenho. A perna treme sozinha, o coração dispara mas eu vou. Eu vou porque sou eu que escolho. Em frente.

Alguém devia avisar: liberdade vicia. Vento na cara, novidade, velocidade. E o depois do limite. Agora posso mais. Fiquei poderosa, dona do mundo, sabe até onde eu posso ir? Nem eu. E a graça ser exatamente essa: ser grande, ilimitada. Nada de “conhece-te a ti mesmo”. Antes disso, desconhece-te. Esquece de onde você achava que começava e terminava. Reinventa tudo. Sem começo, sem meio, sem fim. Livre assim.

Me desenha como um passarinho. Sim, voando. Mas se é assim mesmo que eu sonho? Eu sei voar. Tem dia que a asa acorda tímida, mas lá de dentro, um pedacinho quente me lembra que sei. E então um caminho novo que faz o olho brilhar. Vai ou não vai? Vou sim. Quem chama é natureza de bicho selvagem, criado solto. Fera risonha que gosta de carinho.

Faz muito tempo a grande verdade que Ivan disse. Uma leoa correndo de cabelo solto e o vento, o vento. Uns poemas no meio do caminho. O vento. A leoa correndo sem parar. Pra que parar, afinal? Bom é ir. Coração bem sabe, esquece não.

 

 

* para Ivan Cerqueira, por uma lembrança tão boa

** para Iracema e Dora, que voam junto

*** a ilustra linda é de “El Gaucho”, de Milo Manara ❤

**** trilha sonora: “Queda livre” – Cascadura

Bruxelas

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Uma tela pintada aos poucos, em pedaços. Manet sabia que nem tudo é feito de uma só vez. Eu não. Então olhei para o Dejeuner sur  l´herbe e vi que estamos exatamente como o quadro: divididos. Nem temos certeza de que em algum dia nossas cores se encontrem. Mas os pincéis de Manet também eram dúvida, incerteza, vontade que não cabia em si

  • Mariana Paiva, em 15.04.12, de um diário de viagem

 

 

Dido

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por Mariana Paiva

“Cachorros então não são infinitos, pai?”. Lá de dentro alguém reclamava a única pergunta que eu não fiz pelo telefone, batia o pé querendo saber, coração sem entender. De tantas coisas que alguém grande entende, tem esse fim que a gente não se conforma. Mesmo esperado, com aviso, a gente quer mesmo é o infinito.

Dido chegou numa tardinha. Escolheu minha casa como lar quando encostou tranquilo num tapetinho estendido num canto da sala e dormiu. Veio da rua, vira-lata vagando no meio de um temporal em Ondina. Meu amigo Lubisco parando o carro e aconchegando ele no banco, assustado com a chuva. Perdido. E então Dido, pedacinho de uma palavra que ele não estava mais. Até aquele primeiro encontro comigo na casa de Gal: eu subindo as escadas e ele vindo fazer festa pra mim. Acostumei rápido. Eu não tinha espaço em casa, já tínhamos cachorro no apartamento. Abrimos espaço: essa foi a primeira lição de amor que Dido ensinou. Quando chega o amor, se você for esperto (bem esperto), chega pra lá, abre a porta, compra uma caminha.

Numa outra tardinha, esses dias, ele partiu. Deitou para dormir e não acordou mais. Dias antes, fazia festa quando a porta abriu e eu cheguei, meses fora, morta de saudade. O coração já falhando de tanta emoção, as pernas sem se firmar no chão. Mas o rabinho balançando alegre, resistindo ao tempo que passou. A alegria, esse tecido mais resistente de todos. E eu rejuvenescendo anos em segundos. Dido me lembrando de minha meninice: eu mesma espalhada no chão em brincadeiras com ele. Isso também ele nunca me deixou esquecer.

E aí a saudade, palavra que hesitei tanto em escrever. “Mas essa é uma história de alegria e felicidade”, minha irmã me diz. É mesmo. E também de amor e de um coração no qual é sempre de tardinha, tapetinho no canto, com um cachorro infinito deitado nele

 

 

* e essa foto da semana passada, eu de novo menina, espalhada no chão com Dido