1968 – o ano que não terminou

IMG_20180527_201431641_2por Mariana Paiva

Uma estante de livro tem seus mistérios, páginas nunca antes exploradas até que, um dia, os olhos pousem numa capa e decidam que é hora. Assim foi com “1968 – o ano que não terminou”, de Zuenir Ventura.  É que voltar ao passado talvez seja mesmo uma boa estratégia para entender melhor o presente e pensar sobre o futuro.

No livro, o jornalista e escritor Zuenir Ventura se debruça sobre o ano de 1968, famoso na história do Brasil pela emissão do Ato Institucional n. 5 (AI-5) pelo então presidente Costa e Silva, que pôs em suspensão as garantias constitucionais, dissolveu o Congresso e terminou de oficializar a prática da tortura no país. O país já vivia sob regime militar desde 1964, mas foi em 1968 que este se endureceu frente às resistências que enfrentava.

Zuenir começa o livro com o último respiro da liberdade no ano duro que estava por vir: a festa de réveillon na casa de Heloísa Buarque de Hollanda. As presenças, os risos, as histórias, as memórias perdidas. E então, após o romper do ano, é a falta de liberdade que impera. A resistência paga seu preço que, a cada dia que passa, se torna mais alto. Os estudantes perseguidos. Artistas humilhados depois que plateias consideram espetáculos teatrais indecentes (aqui o caso Roda Viva, de José Celso, e do sequestro sofrido por  Norma Bengell). Parte da população, distraída, segue sua rotina de idas ao zoológico ou à praia. Prepara o lanche que o filho vai levar para a escola no dia seguinte. Como se nada estivesse acontecendo.

Se o livro de Zuenir tem um mérito definitivo (dentre os muitos outros que possui), é esse: lembrar que uma ditadura militar não acontece do dia pra noite. É preciso adesão popular, é preciso que uma parcela da população esteja alheia, é preciso que outra acredite nos métodos (ainda que duros como a tortura). É preciso que haja nacionalismo (não foi esse elemento, aliás, um dos que serviram para justificar atrocidades como o holocausto?), conservadorismo, pensamento fascista à espreita em cada esquina. 50 anos se passaram e, pelo visto, não estamos assim tão longe de 1968. Pelo contrário: parecemos estar, a cada dia, mais perto.

 

1968
1968 - o ano que não terminou
Zuenir Ventura
Editora Objetiva
320 páginas 

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