Category Archives: Música

she´s like a rainbow

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por Mariana Paiva

Há uma novidade imprevista que é capaz de ensolarar qualquer tarde cinza. Um dia de sol que vive no horizonte. A coragem. Com ela vem junto a alegria, sim, essas palavras tão etéreas que eu queria para sempre grudadas em minha boca. Tantos meses adiando, procrastinando. Uma hora qualquer vai ser a certa. E quando for vai ser tão bom.

E de repente enfim é a hora. Um telefonema que resolve tudo. Os fantasmas que a gente cria: vai ser difícil vai dar tudo errado vai complicar. E aí a hora que a coragem se apresenta, tudo fácil como um telefonema de dois minutos para desenrolar qualquer coisa que parecia impossível. Tão simples. E uma risada que surge sem vergonha, aumentando a música, cantando junto. É a alegria. Ela chegou.

E é como um verão, uma segunda-feira de folga na praia, um banho de mar seguido de banho de piscina. De vez em quando estar como se fosse um dia de férias, Rolling Stones tocando altão para não te deixar esquecer que você é um arco-íris (estiagem colorida depois da chuva)

 

(e viva o rock ´n´roll)

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voz no ouvido

rebeccadautremer

por Mariana Paiva

Você ainda tem voz pra cantar. Então aperte o rec e cante aquela canção tão bonita de Chet Baker que você gosta tanto. Ainda tem voz. Se desafinar é porque tá cantando, então continue. Até o final. Mesmo que a voz suma, mesmo que as cordas vocais peçam uma trégua. Cante. Cante do jeito que sabe e vai ser lindo.

Mas só vai ser lindo se for no ouvido que é o amigo da voz. Qualquer outro ouvido corre o risco de se distrair pensando no trabalho, na conta pra pagar, no amanhã. Ou de achar feio, pensar que a métrica podia ser melhor, dizer que tá fora do tom. Pra ser lindo tem que ser o ouvido certo. Não adianta teorizar e não ser o ouvido ideal. O ouvido certo apenas o é, sem nenhuma teoria nem complemento. É definitivo, intransitivo em sua escuta de transformar tudo em lindeza.

E a voz que fica tão bonita pro ouvido certo. Que se entrega em refrões apaixonados sem se importar se, ao falar de saudade, a voz embarga um pouco. Quem foi mesmo que escreveu essa música? Se a melodia for triste, troque por outra. Mas cante. Mesmo desafinando. Pro ouvido certo vai ser sempre lindo. Cante. Você ainda tem voz pra cantar.

* a ilustração é de Rebecca Dautremer

o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente

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por Mariana Paiva

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Cresci com meu pai cantarolando Belchior pela casa. Era a vida ficar um pouquinho dura e ele já me repetia os versos  “A minha alucinação é suportar o dia a dia”. Gostar eu não gostava não. Era uma raridade eu não querer uma música trazida por meu pai, mas aquelas de Belchior eu não queria. Porque ele cantava rápido. Embolava as palavras. E eu queria tudo dito devagar. Pra que a pressa? Eu achava que tinha todo o tempo do mundo.

Boba. Bastou a vida me chamar com seus dias que passam rápido demais que fui me aconchegar em Belchior. Não faz muito tempo não, aliás: foi bem quando ele caiu no mundo sem destino que me vi precisando dele. Era uma rebeldia de cantar como desse vontade, correr contra o desejo da música de ir com calma. Sim, porque a vida não vai devagarzinho. É deitar pra dormir e acordar e tá tudo diferente. Já. É sempre já. E eu descobri.

Precisei de uma música pra (me) abraçar.  No horizonte estava um Belchior sumido no mundo e que de repente passou a fazer todo sentido pra mim. Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção. Aquele coração selvagem dentro do meu peito enfim musicado, transformado em verso do início ao fim. Um repeat infinito pra vida inteira, vontade de gravar na pele pra nunca esquecer. Cante rápido mesmo, Bel. Embole as palavras e tenha pressa porque você tá certo: o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente, tome um refrigerante, coma um cachorro-quente. Onde quer que você esteja nesse mundão de meu Deus, celebre esse som, essa fúria, essa pressa de viver. Na contramão que anda todo mundo que sente, é bem mais alegre com sua voz pra cantar meu hino pra mim

 

Feliz 70, my dear

said you took a big trip

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por Mariana Paiva

 

Era adolescente e gostava de rock. Mas conheci mesmo meu lugar no mundo quando fui apresentada a David Bowie: era possível então ser qualquer coisa. Amei rápido a ideia de ser camaleão, longe do tédio de ser sempre a mesma pessoa. Podia ser colorida, brilhante, viver na terra ou nas galáxias distantes do pensamento. Quis logo me chamar Stardust, e assim foi por um tempo, no mIRC. Lyv Stardust. Poeira de estrelas para provar que tudo era possível, ser tantas e ser uma só. Foi ele quem me ensinou.

 

Ele, minha companhia por muitos anos de manhã. Meu anúncio para a casa inteira de que eu estava acordada: The Prettiest Star tocando, como num recado: todo dia é de brilhar. Hoje, a vitrola acordou calada. É só esse mesmo o sentido da arte: o mundo inteiro, tanta gente diferente unida num mesmo sentimento. Uma terra menos criativa, menos corajosa de ser da maneira que se sonha. Ou então um jeito de dizer à gente que pelo menos tente, que pode ser bom, que pode ser brilhante.

 

No coração, o sonho de um show que não aconteceu, daquela dança em Labirinto, daquela vontade de casa em Everyone Says ‘Hi’. E um obrigada infinito (do tamanho de você) daquela menina que virou mulher e que ainda quer poeira de estrelas. para sempre.

 

 

(descanse em paz, meu Bowie)

O binômio Ponyo-Gil

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É a sua vida que eu quero bordar na minha. Gilberto Gil escreveu A Linha e o Linho muito antes de Hayao Miyazaki fazer a animação Ponyo. Mas os dois falavam da mesma coisa: certeza. Aquilo que o pessoal do Cirque du Soleil parece ter de sobra quando se lança de um balanço a outro. A gente fica boquiaberto na plateia porque não acredita. Queria ter aquela coragem de pular assim, sem rede e de olhos abertos, capaz de saborear cada instante no ar.

Ponyo é o momento anterior. O garotinho Sosuke encontra a peixinha dourada e enche o baldinho verde com água para não deixa-la morrer. Essa parte é simples. Mas a história de Ponyo (já que esse é o nome que ela ganha de Sosuke) guarda outros segredos: ela quer transcender, encontrar o universo desconhecido dos humanos, quer ter mãos e pés. Conhece o gosto do presunto e começa a querer os outros. Ponyo não vacila: confrontada com tudo o que vivia antes, decide ir adiante em seu desejo. E é só por isso que ela acorda.

O que Gil canta é esse momento: a escolha. A música começa no que seria o fim de tantas outras, é sua vida que eu quero bordar na minha. Intransitivo, definitivo. O que vem a seguir na letra é apenas complemento, tudo lindo, porém desnecessário. Gil simula como seria, passo a passo. Mas essa parte é só imaginação. O que vale está dito ali, na primeira frase da música, como também no momento em que Ponyo aprende a falar para ficar mais perto de Sosuke. Sua primeira frase é de amor. E desde então já está tudo decidido (mesmo que o filme tenha acabado de começar)

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