A mulher e a cozinha da história

frida

Por Mariana Paiva

Houve um tempo em que as mulheres posavam para fotos oficiais como protagonistas. Houve um tempo, sim, e não faz muito. E então um novo governo com o passado eternizado na fotografia: ternos bem cortados (possivelmente italianos), gel nos cabelos, cara de sucesso. Um governo feito somente de homens. “Mas o critério tem que ser mérito, não gênero”, dirão os incautos. Sim,  e é por essa mesma razão que precisamos das mulheres nos ministérios.

Mas que não seja um ministério de princesas. De moças de fala mansa e salto 15, mais preocupadas em ajeitar a gravata do par do que com seu próprio discurso. Que não sejam Belas, Auroras ou Brancas de Neve como tantas menininhas em suas fantasias. Que sejam Carolinas de Jesus, Fridas, Clarices, Hildas. Mulheres capazes de escrever suas próprias histórias, escolhendo o caminho de acordo com o critério mais importante do mundo: a vontade.

Basta abrir a porta e constatar: elas já estão espalhadas por aí. Nas chefias das empresas, nos cargos principais das redações, nas universidades, nas ruas. Tanto caminhar apesar do mundo cor de rosa que tentam lhes atribuir como único possível. As mulheres resistem. De salto ou de rasteira, com filho ou sem, sangrando todo mês e sobrevivendo assim mesmo. Dando plantão, acordando cedo, pulando a hora do almoço. É que ser mulher tem disso: é preciso uma força a mais para abrir espaço num país que às vezes prefere ser uma foto só de homens.

Ser mulher e viver no Brasil é sobreviver. É deixar a delicadeza de lado para enfrentar as ruas cheias de cantadas e viradas de rosto, os assediadores nos ônibus, os salários menores no trabalho. É ser perguntada sobre maternidade nas entrevistas de emprego e ser preterida se a resposta for sim. É passar a vida inteira resistindo, exigindo respeito, falando com firmeza. Ser mulher no Brasil – olhando bem aquela foto nova do presidente e de seus ministros – dá um desgosto tão grande que talvez fosse melhor nem ser. À revelia desse rancor que a empurra de novo para a cozinha da história, a mulher resiste. O nome de sua força ancestral: coragem.

 

  • a pintura é de Frida Kahlo
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