A dor da gente não sai no jornal?

tango-3por Mariana Paiva

De vez em quando, uma manchete de jornal é problema de todos nós. Chega mais perto que cobrança de CPMF, troca de governo, protestos nas ruas. Por essa manchete, nenhuma panela bate. Também pudera: incomoda demais. Dói em todo mundo, porque é problema de todo mundo. Ninguém queria falar sobre a menina, mas é que ela está tão aí que não dá mais pra não olhar.

É o dia em que a manchete enfim chega perto da gente. Está nas viradas de rosto ao andar na rua, na hora de escolher uma roupa em que se passe quase despercebida, ou em apertar o passo se um homem se aproxima. Pode ser um cara bacana, alguém que está só passando. Ninguém sabe. Tá no bom dia que você deixa de dar ao taxista porque ele toma sua boa educação por flerte. E aí surgem, inevitavelmente, as perguntas: “Você mora aqui?”. “É casada?”.

Uma conhecida que transava dia sim, dia não, porque o marido queria (ela não). Outra que tinha filhas e cuidava delas praticamente sozinha: as meninas sendo órfãs de pai que vivia na mesma casa, daqueles que “até” trocava fralda e dava banho uma vez ou outra. A moça que preparou com esmero todos os detalhes do casamento mas esqueceu de combinar que as tarefas domésticas seriam divididas igualzinho entre os dois. A sogra que diz que “ele só fica nervoso porque você não para de falar”. Ou então os milhões, bilhões de relacionamentos abusivos em que as mulheres têm medo de gritos e outras agressões de seus companheiros.

São histórias comuns. Não deviam, mas são. Experimente perguntar a qualquer mulher que você conhece. Também é compreensível se você não quiser: pode se surpreender negativamente. Pode ouvir histórias que machucaram pessoas que você ama tanto. São todas histórias de violência, eu te digo. Em maior ou menor grau, nem que seja fazendo piada, somos responsáveis pela triste manchete do jornal. E precisamos não ser mais.

É que não precisamos falar das mulheres: precisamos é falar dos homens. Dos meninos que crescem mostrando o pintinho nos domingos em família, vestidos de azul e fantasiados de rei nas festas de aniversário. Dos adolescentes e do consumo da indústria pornô que trata tão mal as mulheres. Dos homens adultos que seguem casando para ganhar diarista, filhos e babá. Ou então que se transformam em tios cheios de tesão pelas ‘novinhas’. Homens que se vangloriam das pegações do fim de semana numa mesa cheia de outros homens. Para proteger as mulheres, precisamos falar dos homens. Tudo bem. Mas são homens que amamos  (amigos, primos, tios, pais, namorados, maridos, vizinhos), e é por isso que a manchete dói tanto. A dor da gente às vezes sai sim no jornal.

 

  • a cena é de “Último tango em Paris”, com Marlon Brando e Maria Schneider. Os bastidores do filme também têm uma história bem complicada de violência. Dá um Google aí pra ver
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