Bartleby ou o grande cansaço

por Mariana Paiva

 

Uma televisão em stand-by. Um imenso maquinário de fábrica no domingo à tarde. As folhas das árvores num dia de muito calor. Há uma vida que espera todas as coisas, um lampejo de luz que fará tudo se movimentar novamente. E existe Bartleby, o Escrevente, de Herman Melville: a ausência completa de vontade e de movimento. Uma existência que se arrasta pelos cantos, em silêncio, na esquina da vida dos outros.

Todo dia é tudo igual no escritório de um advogado famoso de Wall Street. Todas as tardes seu funcionário mais velho se irrita e borra os documentos. O outro empregado pragueja contra a mesa que usa, já que nunca consegue mesmo achar uma posição confortável para fazer seu trabalho. Muito movimento que engana os incautos: também nesse mover há inércia. Nada além do esperado acontece. É o mesmo que não acontecer nada.

O que move os personagens é exatamente a chegada de Bartleby, o novo empregado da firma. Convocado a conferir os documentos que copiou, ele se limita a responder ao chefe: “Preferiria não”. Sem maiores justificativas, ele vai aos poucos se afastando do trabalho até chegar ao ponto de permanecer no escritório olhando pela janela. Bartleby não come nada além de biscoitos de gengibre e guarda todo seu salário no fundo de uma gaveta. Gasta menos de cinco centavos por dia e assim suas economias vão crescendo.

Em pouco tempo, já estão todos irritados com sua inércia. Mas o vocabulário dos demais funcionários da firma cresceu: todos agora utilizam a palavra “preferir”. Alguma coisa está se modificando finalmente. Só Bartleby que permanece o mesmo, escondido e silencioso atrás de um biombo. A vida é uma sucessão de dias e Bartleby não resiste e nem briga com isso.

Em vez de consolar o coração curioso do leitor, Melville deixa pra quem lê entender o recado à sua maneira. Talvez Bartleby seja representante de um grande cansaço que acomete a todos uma hora ou outra. Quem sabe uma inércia capaz de movimentar tudo ao seu redor, de tirar todas as coisas do lugar, de mudar todo o rumo da história…Quem sabe?

 

bartleby

Bartleby, o Escrevente, de Herman Melville
editora Grua
88 páginas
tradução de Bruno Gambarotto

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