menina do mar

a menina do mar

por Mariana Paiva

É sobre viver agarrado. Quero conhecer a terra, mas eu sou do mar, a menina pequena que dança avisa. O livro é infantil mas não necessariamente: há quem tenha mais de um metro e meio e reconheça verdades escritas. São muitas. São tantas.

“A menina do mar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, fala sem atalhos ao coração. De novo: é sobre viver agarrado. Se nunca viveu grudado a nada, nunca teve paixão, talvez não entenda. É que a menina precisa de uma nesguinha de mar diante dos olhos. Aprendeu a dormir numa cama macia feita de algas, a dançar a liberdade entre os amigos e as cantigas conhecidas. Vai lá, menina, tenta viver a terra. É que ela tem os olhos longos para conhecer novidades, ela quer ir. Mas é uma menina do mar. E é só no mar que ela dança.

A saudade como uma canção que se ouve no repeat. Isso a menina sente mas não sabe nomear.  “As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas”, ela diz. Ao que o rapaz responde, resumindo tudo: “Isso é por causa da saudade”.

A menina quer sentir as coisas da terra. O cheiro da rosa. O gosto do vinho. A chama do fogo. Mas ela é uma menina do mar. “O mar é minha terra. Tu se vieres para o mar afogas-te. E eu se for para a terra seco. Não posso estar muito tempo fora de água. Fora de água fico como as algas na maré vaza, que ficam todas enrugadas e secas. Se eu saísse do mar, ao fim de algumas horas ficava igual a um farrapo de roupa velha ou a um papel de jornal, destes que às vezes há nas praias e que têm um ar tão triste e infeliz de coisa que já não serve e que foi deitada fora e que já ninguém quer”. Ela sabe a resposta do maior mistério que há, talvez: saber de onde se é. Ela sabe.

E é de certeza é que é feito esse livro. É pequeno, mas é grande, imenso. Quase um tratado filosófico bom em tratar com simplicidade um assunto complexo: um lugar no mundo. É uma menina do mar pequenininha, um palmo de altura. Um rapaz que quer mergulhar no tempo infinito sem perder os sentidos. É uma terra grande e um mar maior ainda. Mas quem é do mar não quer saber de brincar no rasinho, lembra um velho amigo meu

livroameninacapa

A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Cosac Naify

48 páginas

Ilustrações de Veridiana Scarpelli

 

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