Dido

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por Mariana Paiva

“Cachorros então não são infinitos, pai?”. Lá de dentro alguém reclamava a única pergunta que eu não fiz pelo telefone, batia o pé querendo saber, coração sem entender. De tantas coisas que alguém grande entende, tem esse fim que a gente não se conforma. Mesmo esperado, com aviso, a gente quer mesmo é o infinito.

Dido chegou numa tardinha. Escolheu minha casa como lar quando encostou tranquilo num tapetinho estendido num canto da sala e dormiu. Veio da rua, vira-lata vagando no meio de um temporal em Ondina. Meu amigo Lubisco parando o carro e aconchegando ele no banco, assustado com a chuva. Perdido. E então Dido, pedacinho de uma palavra que ele não estava mais. Até aquele primeiro encontro comigo na casa de Gal: eu subindo as escadas e ele vindo fazer festa pra mim. Acostumei rápido. Eu não tinha espaço em casa, já tínhamos cachorro no apartamento. Abrimos espaço: essa foi a primeira lição de amor que Dido ensinou. Quando chega o amor, se você for esperto (bem esperto), chega pra lá, abre a porta, compra uma caminha.

Numa outra tardinha, esses dias, ele partiu. Deitou para dormir e não acordou mais. Dias antes, fazia festa quando a porta abriu e eu cheguei, meses fora, morta de saudade. O coração já falhando de tanta emoção, as pernas sem se firmar no chão. Mas o rabinho balançando alegre, resistindo ao tempo que passou. A alegria, esse tecido mais resistente de todos. E eu rejuvenescendo anos em segundos. Dido me lembrando de minha meninice: eu mesma espalhada no chão em brincadeiras com ele. Isso também ele nunca me deixou esquecer.

E aí a saudade, palavra que hesitei tanto em escrever. “Mas essa é uma história de alegria e felicidade”, minha irmã me diz. É mesmo. E também de amor e de um coração no qual é sempre de tardinha, tapetinho no canto, com um cachorro infinito deitado nele

 

 

* e essa foto da semana passada, eu de novo menina, espalhada no chão com Dido

 

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One thought on “Dido

  1. Ivar says:

    Difícil falar em partidas sem falar em saudade, mesmo que a saudade seja parceira da alegria. Partidas, cães, saudades, amor… com tantas palavras cheias de poesia, seria impossível este texto não me tocar e não deixar esta tarde com os olhos úmidos. Beijos Maria. Parabéns pelo texto.

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