precisamos falar das meninas

menina-com-as-espigas-menina-com-flores-de-pierre-auguste-renoir-0
por Mariana Paiva

Precisamos falar das meninas. Do que se esconde atrás dos sorrisos delas, do correr em pulos, das primaveras que vão passando. A história das meninas que é tantas vezes a história do desamor: lembro de meu espanto ao descobrir a verdadeira Lolita do livro de Nabokov, depois de vê-la sensual e provocativa nos filmes de Kubrick e Adrian Lyne. Nas telas do cinema, a menina abusada pelo padrasto no livro virou uma vampira ninfeta, capaz de provocar tanto um homem mais velho que ele sucumbiu. Pouco (ou quase nada) falamos sobre isso.

Pecamos por omissão. Quem paga é a menina de 12 anos que, toda feliz, realiza o sonho de participar de um programa de culinária na TV. Do outro lado das telas de LCD e LED de todo o país, uma multidão de marmanjos baba por ela. Escreve na internet – esse território de liberdades tantas vezes deprimentes – seus desejos. Esses sim são livres. Ela, não, porque nasceu menina. O mundo é mesmo cor de rosa?

E as timelines invadidas por histórias de abuso na infância e na adolescência. Amigas contando, incentivadas pela campanha #primeiroassedio da ThinkOlga, a primeira vez em que foram assediadas. Com palavras, mãos, membros eretos. Vai, verão. Vem, verão. É que falamos tão pouco nisso. Temos vergonha de dizer que aquele parente, aquele amigo ou aquele vizinho se aproveitou de nossa inocência infantil para abusar. Carregamos a culpa anos a fio. Para não destruir a vizinhança, a amizade, para não desestruturar a família. Eles livres. Nós, mulheres, ex-meninas, presas na culpa. Cor de rosa?

Não é um bom mundo pras meninas. Não é um bom país. Para muito além da dor de furar as orelhas ao nascer, outras dores as esperam. Às vezes fantasiadas de carinho, de doces, de algo em troca do bem maior que se tem: a infância. Precisamos pensar quem são esses homens que fantasiam pelas Valentinas da TV. Se pagam boleto de TV por assinatura todo mês, bote fé: talvez não estejam tão longe assim de nós. Na cadeira ao lado do trabalho, no sofá da sala, no quarto ou na casa ao lado. Estou falando de homens, sim. Mas é porque precisamos falar das meninas.

  • a pintura é de Renoir
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: