“Tá na hora” de respeitar

Elena Kalis.jpg2

por Mariana Paiva

Não precisa se apresentar: eu sei sua história. Somos centenas de milhões espalhadas por aí. Para nós mesmas, somos mulheres. Para os outros (incluindo outras mulheres), somos úteros ambulantes. Vamos ao banco, compramos remédios na farmácia, estudamos. Mas nascemos para parir. Será?

É que, a despeito de tanta coisa que as mulheres podem fazer, ainda não há nada que garanta sua paz em escolher. Ainda não se pode escolher em paz o tamanho da saia, o caminho mais curto para voltar para casa à noite, e também não se tem muita paz para viver sua escolha quando o assunto é seu útero. Se você tem 15 anos, dizem que você não quer filhos porque ainda vai querer, é cedo ainda. Aos 20 e poucos, “não quer porque seu relógio biológico ainda vai apitar”. Aham, Claudia, senta lá. Aos 30 e poucos, aí, minha filha, prepare a paciência: vai começar um inferno.

Primeiro é no ginecologista. No meio das perguntas usuais sobre menstruação, chega uma nova: “E aí, já tá pensando em parir? Tá na hora!”. Sua colega de trabalho pergunta se você não pensa em congelar os óvulos, para o caso de se arrepender da decisão. “É que tá na hora, amiga”, ela diz. Os conhecidos, vendo você num relacionamento estável há algum tempo, também. Muitos se espantam de você adorar crianças e não querer uma sua. “Tá na hora”, é o que todos dizem. E então, amiga, quem decide se tá na SUA hora ou não são os outros.  De volta, as pessoas esperam um sorrisinho, uma brincadeira dizendo que “por enquanto não”. Só que chega um momento em que a paciência acaba. Mesmo assim, você, abnegada como Joana D´Arc na fogueira, respira fundo e não manda a pessoa praquele lugar. Porque é educada. Mas que dá vontade, dá.

Sendo que, pra piorar tudo, seu namorado-marido-namorido-whatever não recebe uma cobrancinha sequer. Dele as pessoas esperam promoção no trabalho, um salário bom, um cargo de confiança. Pra ele tá de boa, toda hora é hora. Taí tanto pai que já nasce avô que não deixam ninguém mentir. Ah, é, essa não é uma questão de machismo. Então tá.

Claro que a palavra final é sua. Mas é algo como andar por um mundo que todo dia questiona sua escolha. Como um chefe que toda manhã lhe pergunta: “Vai mesmo escolher essa profissão?”. Pronto. Agora multiplique por 15, 20 anos com pessoas dizendo que você vai mudar de ideia, tentando te convencer do contrário. E você, mulher, que agora chefia uma empresa. Que terminou o pós- doutorado fora do país, você que é referência em sua área. Tem 15 livros publicados, música nas paradas de sucesso, respeito em seu meio profissional. Você que ainda tem que ouvir que “desse mato não sai coelho”. Será mesmo que não saiu nenhum? Ou será que é porque não saiu de você ainda a única coisa que conta?

É como se as outras realizações da mulher fossem escolhas (ela fazendo ou não fazendo, tá bom). A maternidade, por sua vez, uma obrigação de usar um dom que a natureza lhe deu. Se você não quer, é ingrata, estranha, insensível. E olha lá, gente: a maternidade é linda. Mas a escolha de fazer exatamente o que se quer (seja lá o que for, e sempre a seu tempo) é ainda mais. #ficaadica

  • a foto é de Elena Kalis
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: