Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração

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Mariana Paiva

A infância como um tempo de verão infinito. As férias que eram um dia, depois outro, depois outros mil mais. Minha mãe criando passeios inesquecíveis pela cidade, prometendo que o céu seria o limite para nós assim que tocasse o sinal para acabar a última aula do ano. Eu feliz, de vestido xadrez, descobrindo histórias de igrejas, subterrâneos de pontos turísticos, meus melhores sorrisos em foto. Vestido e tênis pra sempre, todo dia era sábado de tardinha nas férias.

As fotografias de criança são boas. Mas são sempre melhores se acompanhadas por aquela alegria infinita de ainda ser, como consolo eterno pra vida que se leva. As contas a pagar, o dia de amanhã que não é mais feriado, as férias sempre menores do que merecemos. Nada importa muito se, do lado de dentro, como diz na música dos Novos Baianos, a menina dança.

Tenho cá comigo meus hits de infância pra me ajudar a ser grande. Em algum lugar, ainda danço coreografias de Michael Jackson com Ana Paula no hall do elevador da casa de minha avó. Espio Fau, minha irmã, aos quatro anos, compondo num São João o hit “Faísca” (inspirado pela fogueira). Ela de novo, marcando para o horário de Jornal Nacional uma apresentação de dança na sala, ela bailando desajeitada ao som da música que tocava no pisca-pisca da árvore de Natal. Noélia, nossa amiga imaginária. O estilo de Rockinho, a felicidade de quando passava Edward Mãos de Tesoura na sessão da tarde. Aos oito, entro na loja de fitas K7 com meu pai e peço Poison. O armário cheio de biscoitos de chocolate na casa de minha vó Iá. Eu querendo saber de tudo, lendo os livros que não eram de minha conta, inventando com Fau uma banda que transformava qualquer música famosa em risada: a banda de riso.

E a certeza boa de que ela não acabou. Outro dia mesmo sentamos no chão e rimos no ritmo de uma música antiga. Ontem desenhei Surfbaldo, a única coisa que eu sabia rabiscar na infância. Ou a alegria de viver ainda num mundo colorido das bonecas de papel Patrícia e Pilar, inventadas por Ana. Não é que o mundo seja fácil e que a gente ignore o que tem de ruim, não é. É só a felicidade de não ter vergonha de dizer que a vida é boa mesmo assim, não ter receio de brincar. Quando a gente cresce demais, nunca mais conjuga esse verbo. Joga, que é outra palavra menos feia pra competir. Quero brincar. Rir e ser feliz, meio “Debi & Lóide” por dentro (e com aquele carro do cachorro que tem no filme), porque assim mesmo é que a vida fica boa

  • na foto, eu e Fau pequenas, numa dessas férias, veraneio eterno
  • Fau, Ana, pai e mãe, esse texto é pra vocês ❤
  • a música do título inspirou tudo (como sempre). É “Bola de meia, bola de gude”, de Fernando Brant e Milton Nascimento
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