“Os da minha rua”, de Ondjaki: jornada sentimental

  • Mariana Paiva

Muito além das análises gramaticais e dos períodos que o compõem, um livro traz sentimento. É a primeira coisa que me vem à cabeça ao terminar de ler “Os da minha rua” (Língua Geral, 2007), de Ondjaki. Podia ser apenas uma coletânea de contos em que o autor vai contando ao leitor episódios de sua infância em Angola. Podia. Felizmente não o é: é, antes, um jeito de dizer que toda história é especial. Isso sendo, talvez, uma das melhores sensações que a literatura pode evocar em quem lê.

À medida em que os contos se desenrolam – narrados sempre em primeira pessoa, por um certo Ondjaki criança -, o leitor se depara não somente com as histórias que ele conta, mas também com as suas próprias. Ao ler sobre as aventuras da turma da escola, do menino que tem asma e não pode tomar chuva ou correr tanto na hora do recreio, o leitor passeia também por sua infância. Histórias impressas no livro que puxam outras, aquelas de dentro. Aquelas que a gente acreditava ter esquecido são trazidas à tona pela delicadeza do autor em dividir partes preciosas de sua vida:  medos de menino pequeno, timidez diante da colega bonita, as vizinhas que compartilhavam os óculos. Tio Chico e seu freezer cheio de cerveja gelada, a casa cheia de amigos sempre pronta pra mais gente chegar. A despedida dos professores cubanos. Tantas lágrimas contidas nos olhos do menino que sabia que não era bom chorar na frente dos colegas da oitava série. Quem nunca?

Ondjaki guardou para o último conto o gran finale: a beleza dura da despedida, como que estivesse se preparando durante todo o livro para ela. E um diálogo entre o menino e a avó que vale o livro:

– Não sei onde é que as lesmas sempre vão, vovó.

– Vão pra casa, filho.

– Tantas vezes de um lado para o outro?

– Uma casa está em muitos lugares – ela respirou devagar, me abraçou. – É uma coisa que se encontra.

Uma página negra separa o leitor de mais uma última surpresa: a correspondência trocada entre Ondjaki e Ana Paula Tavares, poeta angolana das melhores. E então, mais poesia derramada em prosa nas linhas de duas cartas. Sorte do leitor.

osdaminharua

Os da minha rua

Ondjaki

Editora Língua Geral

168 páginas

R$ 32

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