Se eu quiser falar com Deus

emilycarrol

Mariana Paiva

Nas quase sempre tristes manchetes dos jornais, a notícia dos terreiros de candomblé destruídos pelo incêndio. O portão derrubado por um carro, fogo onde antes havia fé. Desumanidade. Ou gente demais que tomou falta na aula de história: a intolerância sempre nos conduziu aos piores momentos de que temos lembrança (temos mesmo?). E não, não queremos “vale a pena ver de novo” dessas dores.

Uma história não menos recente me sobe à memória: a de Kaylane, de 11 anos, que foi apedrejada ao sair de um terreiro no Rio. A menina saiu de casa para rezar. Lá do seu jeito: vestida de branco, pés descalços, guias de proteção no pescoço. Há quem reze de roupa social, paletó, saia longa, salto. Mas esse não era o jeito dela. Rezou horas por um mundo melhor e, na saída, tinha uma pedra no meio do caminho. Drummond que me desculpe, mas tem hora que só a poesia ameniza a dor. É triste ler a história dela no jornal, entre a alta do dólar e o valor do barril de petróleo. Como é que explica pra ela que a oração dela incomoda?

É que ainda somos tão ignorantes. Nos recusamos a abrir a porta às senhoras testemunhas de Jeová. Achamos aquela amiga que vive na igreja uma careta. Rimos escondido do amigo que diz sentir energias ruins onde chega. Temos medo da vizinha  cheia de guias no pescoço. A conta é simples: se não concordamos, não nos diz respeito. Podemos até fazer piada, dar risada, mandar chutar que é macumba ou dizer que crente é tudo assim mesmo. Não procuramos saber mais, não lemos, não queremos conhecer. O mundo que nos importa é o nosso, o resto que se dane. Tá certo? Não, não tá não.

Gritamos na hora de pedir respeito, mas silenciamos (ou melhor, somos omissos mesmo) no momento de respeitar o outro. Ou então damos sonoras gargalhadas na mesa do almoço de domingo enquanto reprisam Chico Anysio naquele quadro de Painho e Cunhã. É só uma piada inocente, né? Será?

E então a dor do outro, que um dia vai ser a dor da gente. O mundo  anda tão duro, tão complicado, e a gente querendo que as pessoas parem de rezar. Verdade que é cafona e totalmente antihype falar disso. Mas é isso por hoje: rezem mesmo. Na mesquita, na igreja, no terreiro, em casa, no templo, onde quiserem. Falem de amor e peçam que o mundo melhore, cada qual ao seu jeito. E assim, quem sabe, um amanhã mais humano

* a ilustra é de Emily Carroll

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