Nem o prego aguenta mais o peso desse relógio

Carl_Larsson-Lathörnet

* Mariana Paiva

O dia meio cinzento, as ruas cheias de gente. É domingo e dia de feira, todo mundo de olho na própria bolsa pro malandro não chegar. Faz tempo que estou longe de casa. Foi assim mesmo que me dei conta: casa não é só um lugar. É tudo o que você tem e é você.

Minha moradia era o sol. Mas confesso que ali, naquele meio dia chuvoso, todo mundo de casaco, estive em casa. Olhei ao redor e todos aqueles sorrisos eu conhecia. De uma loja de discos vinham pedacinhos de grandes hits dos anos 70 e 80. Dava pra dizer que as visitas trouxeram aquela alegria toda. Mas não era exatamente assim: na verdade, era a casa que tinha viajado milhares de quilômetros até estar ali, ao meu redor.

Foi assim que a casa me abraçou. Sem fechadura, sem portas, sem nada. Um estar barulhento ao redor, cheiros conhecidos. A felicidade de conhecer a palavra seguinte. Sabe como é? Tudo explicadinho sem dizer nada. Simples como era brincar de bola na infância, tentar fugir da sala no maternalzinho.

Ou aquele sorriso que não se contém a dar um abraço há muito esperado. Contado e esperado em dias, horas, minutos, segundos. E o não querer largar da hora de se despedir, olhos tentando segurar as lágrimas e falhando tanto. Hesitar em abrir a tal porta da casa e sair sem olhar pra trás, não ver o carro partir, o avião decolar. E lembrar de uma inscrição antiga, muito antiga, numa caneca já perdida na lembrança: lar é onde mora o coração

* a pintura é de Carl Larsson

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