Se tudo pode acontecer

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Mariana Paiva

Entre um dia que nasce e outro que termina, me peguei pensando no título de um livro na estante de casa: “Jovem audaz no trapézio voador”. Nada mais que alguém cheio de coragem que aceita a altura e pula, brincando com o medo. Não quer dizer que ele não olhe para baixo de vez em quando. Quer dizer apenas que, apesar disso, ele pula. Porque é audaz.

O livro de William Saroyan chegou à minha vida num desses momentos de grande mudança. Xico, amigo querido que sempre me traz grandes livros, determinou: ‘você precisa ler isso agora’. Era verdade. Literatura tá aí também para consolar a gente das dores da vida, seja ela de autoajuda ou não (Saroyan não é, mas isso importa pouco). Ou até mesmo para fazer a gente subir mais um degrauzinho.

O livro na estante de casa. O livro novo, a estante nova, a casa nova. Tudo novo. O GPS que às vezes leva para o lugar errado e o eterno aprendizado de rir disso tudo: de colocar o destino para uma cidade chamada Pedreira e ir parar numa pedreira de verdade, com cachorro grande latindo no portão. E rir. É preciso ser um jovem audaz para rir no trapézio voador.

Às vezes também não rir. Mas saber que precisa tentar de novo no minuto seguinte, na hora seguinte, no dia seguinte. Como o mestre Saroyan ensina, num dos contos do livro (“E Homem”), em que havia um hidrante bem alto na rua que ele sonhava em pular. Mas o medo tão grande. E então um dia o esperado pulo: “De repente, me vi pulando, com folga, sobre o hidrante. Eu achava que agora poderia fazer qualquer coisa que quisesse. Saltei várias vezes sobre o hidrante e me vi caindo sólido e em pé, do outro lado; foi bárbaro”.

E então não estar mais embaixo olhando pra cima, e sim sobre o trapézio, pulando de um lado a outro. Ou desafiar o hidrante imponente e descobrir que ele nem era tão grande assim. Sonhar com as alturas, com o pulo, e de repente estar ali, em pleno mergulho. Ter como prêmio o olhar cintilando diante de tudo o que é novo, coração selvagem feliz dentro do peito, certeza de alma de jovem audaz

* para Xico, com um obrigada infinito

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