depois deste dia feliz não sei se outro dia haverá

jules_beach

Mariana Paiva

Dos melhores presentes que já recebi, a maior parte deles eram canções. Chegaram sem embrulhos bonitos, laçarotes nem pirotecnias. Mas eram grandes, imensas em sua simplicidade. Como no CD que Marco gravou para mim há muitos anos. A capa era a famosa cena de Jules e Jim, o filme de Truffaut, com os três protagonistas na praia. Inscritas no disquinho, estavam a voz fantasmagórica de Claudine Longet, uma animada France Gall, uma sensual Hardy. Nouvelle Vague cantando Joy Division e Antony and the Johnsons, que demorei de me acostumar, mas depois gostei muito (e pra sempre). Tanto amor em parar um tempinho do dia e escolher canções pra alguém. É possível haver presente melhor que uma trilha sonora pra ser você mesmo?

Ou aquele dia em que Marina gravou umas músicas no meu já cheio pendrive de ouvir no carro. Era o mesmo caminho que eu fazia toda as manhãs (e andava meio sem graça com ele, confesso). Mas aí as músicas de minha amiga deram sobrevida àquilo tudo. Uma faixa era especial: Mallu Magalhães cantando “Manhã de carnaval”. Arrastadinha como deve ser um dia feliz, brincando com o tempo pra ele não acabar. Ficava pensando nisso enquanto ouvia. A música era minha conhecida na voz de outros, mas foi com a de Mallu que percebi que gostava tanto. Em pouco tempo, eu já invadia os silêncios cantando aquele que deve ser um dos trechos de música mais bonitos do mundo: “Depois deste dia feliz não sei se outro dia haverá”.

Porque é isso o que todo mundo quer. Um dia feliz e um day after mais feliz ainda, alheio a todas as manchetes de jornais. Não é possível, né? Na música, talvez. Ter uma canção para cada ocasião é algo como ficar imune à solidão: tem sim alguém que entende essa dor ou essa alegria. Se o dia começa cinza, “Hay dias que no sé lo que me pasa”, com Toquinho cantando “Cotidiano nº2”. Se for despedida com data certa de abraço, aí é caso pra “Beija-flor”, da Timbalada: “Eu fui embora, meu amor chorou/ Eu vou voltaaaaar”. Paixão irresistível a gente brinca com Tom Waits em “I hope I don´t fall in love with you”. E por aí vai.

E as músicas que guardei da adolescência grunge de minha irmã. Os discos de Natal (minha época do ano preferida) gravados por Breno. As obscuras de Nina Simone apresentadas por Joana, Cristiano cantando “Alvorada” de Carlos Cachaça de manhã. Minha mãe apaixonada pelos Carpenters, meu pai que me deu pra sempre uma canção de Gil (“Pai e mãe”). Tanta música que não dá pra fazer um top 100.

Tudo isso pra dizer o simples: precisamos da música do outro em nosso repertório. Que é uma metáfora de vida também, mas antes, uma necessidade básica, café com pão existencial. Uma alegria secreta, uma certeza de levar algo do outro, de caminhar junto. Um disco ou umas músicas que dizem: “Vou com você”. Como “Mi negrita”, de Devendra, presente de Eron. Ele nem sabe, mas ouço todo santo dia. A música como uma companhia para levar a vida adiante (que é pra onde tem que ser), como um jeito feliz de quebrar o gelo do silêncio. Como a tal da manhã de carnaval, ou melhor: como uma semana cheia delas, como um dia tão feliz que nem precisa do amanhã

*A cena, claro, é a do filme de Truffaut

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One thought on “depois deste dia feliz não sei se outro dia haverá

  1. blogdojoaodellaglio says:

    Reblogged this on blogdojoaodellaglio.

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