O que não tem governo e que nunca terá

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Mariana Paiva
Outro dia, estava fazendo supermercado, escolhendo meus tomates na paz. Do alto falante,a voz do locutor anunciava as promoções, chamando a atenção do pessoal: “Você, minha amiga dona de casa, você, chefe de família, venha conferir nossas ofertas”. Foi tão retrô aquele momento. De 2015 para 1950 num minuto, sem máquina do tempo nem fórmula secreta. Estranhíssimo.

Como também aquela enquete ativa na página da Câmara dos Deputados: “Você concorda com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família?”. Tá bom que a gente anda se acostumando com esse tipo de maluquice, mas perguntar o óbvio é demais. Explico.

Num mundo pulsante que há além de todas as enquetes, a vida acontece. Até mesmo – pasme – à revelia de nosso clique no mouse. Claro que é preciso defender o que se pensa, mas não é você quem escolhe se sim ou se não. Não é. Porque, a essa hora, os dois rapazes correm pra levar o filho adotivo pra escola. Conferem o diário na mochila, o estojo de lápis, a lancheira. E você aí pensando se sim ou se não.

Se já não somos tão sábios assim quando adultos, pensemos como criança então. Quando era pequena, minha primeira ideia de família era pai, mãe, irmã, cachorro. Porque era a minha. Mas foi nessa mesma família (exatamente como aquelas dos comerciais de margarina) que aprendi que havia outras. A de tia Helena, por exemplo: ela criava o filho sozinha. Toda vez que saía sem ele, pedia um pedaço do bolo da festa pra levar pra casa. Tanto amor que nem podia haver questão: eram sim uma família.

Para o mundo das enquetes, entretanto, seria uma dúvida. Faltava uma pessoa à mesa, um homem, para virar família. Aquele mesmo que tinha caído no mundo, sumido, que não quisera estar ali. E agora que o menino cresceu, como é que avisa a tia Helena que ela e o filho podem não ter sido uma família?

Boa mesmo é a descoberta de que o mundo não começa no quarto e nem termina na mesa de jantar da casa da gente. Nesse sentido (e em tantos outros), as crianças andam mais sábias: elas querem aprender. Não se fecham em crenças e ideias duras. Não temem o futuro. Querem é passar logo o tempo, nada de 1950 com suas donas de casa e chefes de família. Nada. Só mesmo a vida sendo veloz e pra frente.  E então, quem sabe um dia, nada de enquete com letras frias sobre a vida (que segue) de tanta gente real

* a ilustração é de Bruno Aziz

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