Ao mestre com carinho

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Mariana Paiva

Vale mais saber jogar bola, bater um bom escanteio, cobrar falta. Pelo menos no que se refere ao valor da conta bancária, com certeza, vale mais: ser professor no Brasil não é bom negócio. Nunca foi. Mas é que agora tá pior. Tem bala de borracha e gás lacrimogênio enquanto a vida de tanta gente é discutida a portas trancadas nos plenários. Dos cordões de isolamento. São tristes demais as notícias do Paraná.

É que, do lado de dentro do plenário, estão homens engravatados. Eles já foram meninos. Um dia talvez tenham até comemorado aprender a juntar letras e formar palavras, talvez tenham até sido felizes ao ler uma linha inteira de um livro. Foram professores – como aqueles do lado de fora, depois do cordão de isolamento – que ensinaram. Só que agora, presos em seus ternos italianos, os meninos crescidos não lembram mais.

Também não recorda de nada o político que deu a ordem de conter os manifestantes. Não terá ele tido uma pró Aninha como eu? Certamente. Mas não lembra ou quer esquecer. Do alto do cargo que ocupa, ele deixou de saber que é possível escolher uma profissão por amor. Não pela verba de gabinete, pelo auxílio-moradia, pelas pompas com as quais é recebido onde vai. Por amor, essa palavra de luxo, como diz Adélia Prado.

Outro dia até falei disso em sala de aula: nesse país, ninguém é professor pelo dinheiro. Só o amor pelo outro justifica querer ir para uma sala de aula no Brasil (seja ela qual for). Não é que não se receba nada de bom de volta, muito pelo contrário. Há os sorrisos, os abraços sinceros, a alegria silenciosa de perceber um aluno despertando para o conhecimento. Mesmo que seja um só numa sala de 50. Ou a satisfação de estender a mão do saber a quem, diante de uma vida difícil, nunca estaria numa sala de aula. Mas está. E você comemora sem dizer uma só palavra, mas com o coração feliz.

Pensando assim, não sei se falta mesmo educação no Brasil. Acho que a ausência é de outra coisa, daquilo que virou tão piegas, tão cafona hoje em dia: coração. Foi o que sobrou àqueles PMs que se recusaram a cercar os professores. Estando ali e vendo milhares deles lutando por seus direitos, eles devem ter lembrado dos bons mestres que tiveram, que os ajudaram a viver. Num bom país imaginário, talvez estes homens não estariam presos. Ao contrário: seriam condecorados pela boa memória que têm. Uma pena que não é aqui esse lugar, Brasil.

* a pintura é “The first lesson”, de sueco Carl Larsson

* * dedicado aos bons professores que tive e aos alunos que tenho

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