Deixe-me ir, preciso andar

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Mariana Paiva
Tem uma cena de um filme que sempre achei das mais bonitas do cinema. É naquele filme “Uma vida sem mim”: a moça sai do hospital sabendo que vai morrer, senta para esperar o ônibus, sobe nele e a câmera continua parada ali no ponto vazio. Ali é a hora de maior dor no roteiro: a de saber que tudo vai continuar, apesar de você não estar mais ali.

A situação do filme é mais dramática do que grande parte das vezes que sentimos aquele aperto em não estar mais em algum lugar. Pode acontecer pelo fim de um relacionamento: e aquela cama na qual a gente dormia, que foi nossa durante um tempo? E aquele meu vidrinho de alfazema que fica lá, mesmo sabendo que vende (e é barato) em qualquer farmácia?

Rubem Alves diz que,mais que as pessoas, a gente ama as cenas. Talvez seja isso mesmo: como é que um dia a gente vira e fala pros olhos que não vão mais ver aquilo tudo? Se fosse um simples “esqueça aquele caminho”, tava bom. Só que não é.

Talvez porque, em vez de a gente ir passando pelos lugares, a verdade é que eles grudam na gente. Tipo chiclete no sapato. Você tenta esfregar a sola no chão e não sai. O que a gente vive a gente leva. E as coisas existirão sempre, a despeito de estarmos ou não ali.

É um pouco o incômodo que sinto ao passar pela casa onde vivi a maior parte de minha vida. Lembro de ter ficado incomodada ao saber que o dono atual tinha trocado o piso por um feio. Não é mais a minha casa, claro. Mas é. Vai convencer o coração.

Por isso às vezes a gente fica. Acha que não vive sem a mesa do trabalho (a sua mesa, tão sua, cheia de suas coisas, com a foto do seu cachorro), sem a cama daquele amor antigo, sem o vidro de alfazema. Dá medo ir embora: o velho é aquela piscina de casa de avó, a gente sabe que dá pé. E se a nova for funda demais pro nosso eterno medo de testar se sabe mesmo nadar?

Mas aí a vida é cheia de primeiras vezes, e nenhuma delas foi  fácil. Todas devidamente acompanhadas pelo mesmo frio na barriga, pelo mesma falta de sono na noite anterior. A vida é uma final de campeonato todo dia, e a graça tá nisso aí mesmo: dói. Tira o ar, que nem aquelas escadas altas de tobogã. Você pensa em voltar mas não dá mais: tem tanta gente querendo subir que só tem um sentido pra você ir, e é pra frente. Diante do inevitável, fecha os olhos, tenta esquecer a altura e vai. E aí descobre que, apesar da altura, quer pular de novo. Porque o pulo tem um gostinho que a alfazema e a cama conhecida nunca ouviram falar. É novidade a melhor coisa do mundo.

* a ilustra bonita é de Rebecca Dautremer

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